Como fica o Xadrez autárquico?

Em Opinião

Já se sente o fim de ciclo na cidade de Santarém.

Não foi ainda desta, mas ficou o aviso, para a próxima o poder mudará mesmo de mãos, no entanto ficaram algumas novidades curiosas.

Existe uma maior oscilação de votos do que de percentagens, eu destacaria o facto de o voto de protesto ter sido absorvido em parte, aliás houve menos brancos e nulos que em 2017, ou sejas esses votos foram para algum lugar (não vou especular qual).

É igualmente interessante a vitória na União de Freguesias da Cidade de Santarém por 19 votos por parte do PS, mostrando uma mobilização para o voto útil, que pode ter importância nas contas de 2025, basta somar oposição toda junta, teria ganho a autarquia, mas isso não são contas para agora.

Além de o PS ter ganho mais juntas de freguesia.

A população mostrou que gosta de dividir o poder, e deu uma reforçada centralidade à Assembleia Municipal.

Tivemos novos Partidos a ocupar espaços “vazios”. O facto mais negativo foi Santarém ter sido a única Capital de Distrito em que o Chega elegeu um vereador, muito devido a ser o único que fazia campanha emocional, e importa aprender com os erros.

Vamos aguardar sobre a governabilidade, não acho que estejamos perante uma aritmética simples, e espero que o PSD não se esqueça dos seus valores fundacionais quando distribuir pelouros e equacionar apoios[1].

Somos uma sede de concelho quente, suja e descuidada desde os jardins, estradas, passando pelos monumentos e que ignora as alterações climáticas, que são a grande batalha do século XXI, uma cidade onde o verde deu lugar ao cimento ignorando esse facto e apenas querendo um excel bonito para pagar dívidas de má gestão (Só o PAN marcou essa agenda) , mas as pessoas nem sempre votam por causas, e os partidos em geral também precisam de perceber isso.

As eleições foram poluídas pela pandemia, e já sabemos que a Democracia tem ciclos, ou seja, quem tem o poder tem muita vantagem.

Em abstrato é o poder que perde as eleições, a oposição é um bocadinho como uma equipa pequena que joga contra um grande, tem de esperar o erro e fica dependente do contra-ataque.

Acrescento ainda o que acho mais relevante, a abstenção não melhora, apenas reduz em percentagem porque reduz também o universo de votantes.

Tal acontece por culpa de todos, e eu vou mais além, o poder tem interesse nessa baixa participação, pois o poder apenas se quer conservar. Todos os partidos possuem culpa neste quesito, pois em particular a maioria da oposição esteve mais preocupada em manter os fiéis, do que em alargar a base de apoio, não bastam posts de facebook, e apelos estéreis ao voto é preciso ação concreta para que as pessoas e os jovens participem.

A política não é apelativa para a maioria das pessoas, e tal faz com que tenhamos assistido a uma crescente degradação de quadros , pois os partidos não consegues recrutar na “sociedade civil” e ficam reféns da trincheira interna.

Este facto é relevante porque falamos das eleições com mais impacto concreto na vida das pessoas, e até eram algo disputadas, mas mesmo assim houve desinteresse que não se resolve com lamúria de “ausência de cidadania”.

Este problema tem muito anos, e não é de solução fácil, os partidos no geral precisam de funcionar de outra maneira, continuamos a ter as campanhas iguais aos anos 80 apenas com tweets e posts como diferença e é preciso mais. Nomeadamente porque o cidadão quer que lhe resolvam problemas, não quer tratados ideológicos, e tem de sentir a pessoa em causa percebe esses problemas, falta também no geral empatizar com as pessoas.

Isto é muito relevante pois a ameaça que para sobre a democracia cresce a explorar o egoísmo e o medo, que são gatilhos mentais muito fortes, focar nos problemas reais, admitindo por exemplo que ganhe quem ganhar amanhã o ordenado não triplica, não existem soluções mágicas. No entanto é um desafio gigante porque o ser Humano gosta de polarização e está formatado para a esperança e Portugal sofre de um Sebastianismo crónico que vem de séculos atrás.

Mas é possível e vamos ao trabalho, daqui a 4 anos teremos um novo ciclo, que as pessoas não se esqueçam que se nós não fizermos algo, ninguém vai fazer por nós.

Luís Martinho


[1]    As três setas do símbolo do PSD têm origem na luta dos sociais-democratas contra o nazismo? (COM VÍDEO) – Polígrafo (sapo.pt)

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