Jovem designer do Cartaxo multada por desrespeitar o recolhimento obrigatório e não por “comer sandes no carro”

Em Sociedade

Uma jovem do Cartaxo lamentou-se nas redes sociais de ter sido “multada por comer uma sandes no carro” e tornou-se uma “celebridade instantânea”, primeiro na imprensa local e já esta semana, tornou-se assunto no Polígrafo da SIC e a jovem foi hoje contar a sua história no programa da Júlia Pinheiro na SIC . Só que afinal, a jovem foi multada por violar o dever de recolhimento e não por comer uma sandes o carro.

Raquel Carvalho, designer do Cartaxo, de 27 anos

Tudo começou com a jovem Raquel de Carvalho, “designer” de profissão, com 27 anos, a lamentar-se no Facebook: “Multa de 200 euros por ‘ingestão do seu almoço’, ‘no interior da sua viatura’. Para que fique esclarecido, a polícia não tem culpa disto, a polícia recebeu uma denúncia anónima de que eu estava a almoçar naquele local”. A publicação ganhou escala viral com milhares de partilhas nos últimos dias e tornou-se notícia.

Já esta semana, ao Polígrafo da SIC, a jovem Raquel Carvalho garante que «no momento em que foi abordada pelos agentes da PSP, tinha acabado de almoçar. Eu estive sempre dentro do carronunca saí. E ia para ali sempre, com ou sem confinamento, sempre dentro do carro”. Adianta que “não houve nenhum aviso. Quando os agentes chegaram ao local disseram que estavam ali por receberem uma denúnciaFui logo multada. Tentaram saber o porquê de eu estar ali e depois disseram que eu tinha mesmo de ser multada“.

O que ela não contou é o que consta do documento de notificação da multa, com “informações complementares” registadas por um dos agentes da PSP envolvidos na operação: “Por determinação superior, desloquei-me à Quinta da Cabreira nesta urbe, na companhia da testemunha, em virtude de haver notícia de uma viatura estar estacionada com um indivíduo no seu interior infringido deste modo o recolhimento obrigatório”, refere o documento, comprovando a origem numa denúncia de terceiros não identificados.

Foi a infratora informada que estava a incumprir com a observância do dever de recolhimento obrigatório, uma vez que era no domicílio profissional onde naquele momento deveria ter permanecido até ao términus do horário laboral, ainda que na sua hora de almoço. Não foi dada hipótese de pagamento voluntário do valor da coima, em virtude de não ser possível no imediato ser levantado o auto de contra-ordenação e passado o respetivo comprovativo de pagamento“, refere ainda o papel da multa.

Por seu lado, a Direção Nacional da PSP emitiu um esclarecimento: “Tal como tem constado dos pretéritos Estados de Emergência, e continua a constar do presentemente vivenciado, todos os cidadãos deverão permanentemente observar o dever de recolhimento domiciliário. Encontram-se legalmente consagradas exceções a este dever, que pretendem garantir um nível mínimo de qualidade de vida, não constituindo contudo justificação para não observação daquele dever.

Assim, segundo a Direção Nacional da PSP, “a permissão de deslocação (para praticar desporto, passear o animal de estimação, etc) deverá ocorrer nas imediações do domicílio e a deslocação para trabalhar deverá servir esse fim“.

Ou seja, esclarece a PSP, “no caso concreto apresentado, a cidadã invocou que pretendia almoçar no interior da viatura, motivo pelo qual saiu do local de trabalho. O que não poderia ter ocorrido era a cidadã deslocar-se especificamente com a sua viatura para um outro local, que considerava mais adequado para esse fim em concreto, à semelhança de outras pessoas que também a acompanharam. Ainda que pretendesse permanecer no interior da viatura, deveria tê-lo feito no parque do local de trabalho ou no seu domicílio“.

Pode ser uma imagem de 1 pessoa, sentado, mobília, interiores e texto que diz "úlia DE SEGUNDA A SEXTA Júlia"

Já esta quarta-feira, no programa de Júlia Pinheiro na SIC, Raquel Carvalho acrescentou ainda que sofre de doença oncológica e que está a ser impedida pela empresa onde trabalha de ficar em teletrabalho. A jovem designer diz que “por ser uma pessoa de risco, costuma evitar permanecer no local de trabalho durante a hora de refeição, optando por almoçar no carro, num parque de estacionamento a poucos minutos da empresa”.  

O problema é que, como ela, muitas outras pessoas passaram a fazer o mesmo, atraindo a atenção dos vizinhos do local que ficaram indignados com tantas “exceções” ao dever geral de recolhimento obrigatório e chamaram a polícia…

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