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Leituras inextinguíveis (20): O Túnel de Pombos, por John le Carré

Em Leituras

Com a concordância do jornal, criou-se uma secção com a seguinte especificidade: leituras do passado que não passam de moda, que ultrapassam por direito próprio a cultura do efémero, que roçam as dimensões do cânone da arquitetura, da estética e do estilo, tidas por obras-primas, mas gentilmente remetidas para as estantes, das bibliotecas públicas ou privadas. Livros ensinadores, tantas vezes, e injustamente, tratados como literatura de entretenimento.

Conhecido em todo o mundo como o mago da literatura de espionagem e das narrativas de aventuras onde se equacionam alguns dos temas candentes do nosso tempo, desde o tráfico de armas, ao fomento de conflitos locais e regionais e à corrupção do sistema financeiro mundial, aos 85 anos este prodigioso nome das letras conta-nos histórias da sua vida: “O Túnel de Pombos”, por John le Carré, Publicações Dom Quixote, 2016. Se de Camilo Castelo Branco se diz que das muitas dezenas de milhares de páginas de que escreveu o seu melhor romance foi a vida que viveu, John le Carré lega-nos com este extraordinário livro a jornada de uma vida, revela uma inspiração capitosa ao misturar episódios da juventude, facécias e atos rocambolescos da sua passagem pelo mundo dos serviços secretos até à definição do perfil das suas personagens, ele que é escritor ao longo de mais de seis décadas.

É confessional: “Adoro escrever. Adoro fazer o que estou a fazer neste momento, a escrevinhar como um homem escondido, a uma secretária pequena, no início de uma manhã de Maio com nuvens pretas. Adoro escrever em trânsito, em blocos de apontamentos durante caminhadas, em comboios e em cafés, e depois voltar à pressa para casa para esmiuçar o meu tesouro”. John le Carré bate à porta de muita gente, desde executivos médios na indústria farmacêutica a banqueiros, mercenários e vários tipos de espiões, é contemplado pela sua paciência e generosidade. Os mais generosos foram os repórteres de guerra e os correspondentes estrangeiros.

Revela as entranhas do que foram os serviços secretos durante a Guerra Fria, releva as grandes traições, como se processou a reciclagem de nazis para os serviços secretos alemães, as peripécias com políticos que acompanhou a Grã-Bretanha, nas suas funções de diplomata. São tempos da maior representação, nunca as máquinas da ilusão estiveram tão perfeitamente oleadas, porque nada é o que parece, e daí a tragédia dos agentes duplos. Tece rasgados elogios a todos aqueles que em vários cenários e em vários continentes o ajudaram a definir carateres, a perceber ódios, conflitos, estratégias de guerra. Nunca viaja sem o conhecimento prévio do local que pretende conhecer. Tem medos e vive com os seus fantasmas: “As prisões têm um desagradável fascínio para mim. É a imagem perene do meu pai no cárcere que não me larga. Na minha imaginação vi-o em mais prisões do que as que ele alguma vez habitou, sempre o mesmo homem robusto, possante, irrequietamente ativo, a andar de um lado para o outro na sua célula e a protestar a sua inocência”. David Cornwell (o verdadeiro nome de John le Carré) conversou com Arafat, Sakharov, Margaret Thatcher, e muito mais, dá-nos imagens altamente impressivas desses encontros espúrios. Fez amizades magníficas como a de Alec Guiness. É extraordinário o modo como ele analisa o traidor Kim Philby, traição com seríssimas implicações que teve na vida de dezenas e dezenas de pessoas que ele condenou à execução. É empolgante a sua viagem ao Congo quando preparava o seu romance A Canção da Missão e não perde oportunidade de fazer mais uma das suas observações singulares: “Em todos os locais conturbados que já visitei há sempre um bar para onde convergem, como se em cumprimento de um ritual secreto, jornalistas, espiões, funcionários de organizações de ajuda humanitária e aventureiros. Em Saigão era o Continental; em Phnom Penh o Phnom; em Vientiane, o Constellation; em Beirute, o Commodore. E aqui em Bukavu é o Orchid, uma casa colonial baixa por trás de portões e à beira do lago, rodeada por chalés discretos”. Concluído o romance, não mais o voltou a ler, mas rememora: “O Congo Oriental foi a minha última incursão pelos campos de morte. O romance fez justiça à experiência? É claro que não. Mas foi impossível reproduzir por escrito o que aprendi. É empolgante a falar dos seus filmes falhados e de quem os quis realizar, como Fritz Lang ou Sydney Pollack ou Francis Ford Copolla ou Stanley Kubrick.

A grande afeição que sobressai neste livro de memórias é pelo seu pai, dedica-lhe parágrafos sublimes. Um exemplo: “No lar de idosos onde viveu nos seus últimos anos, passámos uma grande parte do nosso tempo a deplorar os delitos do meu pai ou a rirmo-nos deles. Com a continuação das nossas visitas, acabei por compreender que ela tinha criado para si mesma – e para mim, uma relação mãe-filho idílica e que fluíra ininterrupta desde o meu nascimento até aquele momento”. E quando se despede do leitor, dá conselhos a um aspirante a romancista, e aproveitar para citar Graham Greene: “Antes de acabar de escrever um dia, asseguro-me de que deixei alguma coisa na manga para o seguinte. O sono opera maravilhas”.

De leitura obrigatória, faz parte do que de melhor John le Carré escreveu.

Mário Beja Santos

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