(Des) protecção do Centro histórico da vila de Constância

Em Opinião

Quando se deixa perder as oportunidades, perde-se o comboio do desenvolvimento. A realidade parece estar aí, à vista desarmada. A Câmara Municipal de Constância  há uma década atrás dava nota de ter sinalizado 45 imóveis a necessitar de intervenção urgente, no âmbito da candidatura com vista à classificação do núcleo histórico como área crítica de recuperação e reconversão urbanística. No desenvolvimento desse processo a CMC noticiou ter adquirido então um total de 23 imóveis. Entretanto a autarquia terá gasto 500 mil euros em aquisições e expropriações e um milhão de euros em empreitadas e projectos. A CMC recorreu ao programa REHABITA e recuperou apenas alguns edifícios na praça, rua Luís de Camões e pouco mais.

De repente surgiu pintada de azul a casa da antiga taberna na Rua de São Pedro. Sem que haja vestígios no edifício dessa pintura assim.

Em 2018 foi aprovado o Programa Estratégico de Reabilitação Urbana (PERU), da ARU do Centro Histórico de Constância . Mais um…No caso do território do centro histórico de Constância  há uma diversidade de intervenções previstas ao nível de infraestruturas e espaços verdes urbanos, que se encontram associadas ao programa de investimento público que abrange 25 acções/projectos especificamente ligados à reabilitação/regeneração do edificado e do espaço público urbano, e que totalizam um investimento total de cerca de 3,3 milhões de euros.. Para implementar até dez anos. Capacidade para projectar não falta, por conseguinte…

Grades recentes nas margens do rio agridem estética da paisagem.

No que se refere concretamente à esfera privada, e de acordo com o levantamento efectuado pelos serviços técnicos do município de Constância, foram identificadas cerca de 50 intenções de investidores. Este conjunto de intervenções ascende a cerca de 7,8 milhões de euros de investimento (valor previsional).

Remoção de trapeira histórica  e característica da antiga praça do centro histórico da vila de Constância. 

Ao que sabemos há por aí um milionário que compra as casas velhas a cair e não faltam estaleiros na pacata e deserta vila 
Durante a tomada de posse o novel  presidente afirmou: «A reabilitação do património já edificado na vila e nas aldeias é outra prioridade, deixando de lado novas urbanizações.»  Permitam-me um pequeno aparte:já no mandato da gestão socialista temos assistido à remoção de históricas trapeiras bem como ao surgimento de outras onde nunca existiram, assim como vimos aparecer casas pintadas de azul onde a cor reinante sempre foi o branco.  Há dias apareceram grades de alumínio na zona do Zêzere a romper com a estética paisagística exigível  Os técnicos é que sabem como contornar os regulamentos  de salvaguarda e protecção do núcleo histórico. Essa habilidade não é para o comum dos cidadãos.

Na origem da desertificação do centro histórico estão várias causas. Uma delas foi a opção errada de se destruir o pinhal D’ El Rey para construções urbanas. Destruíram o “pulmão” da vila. E deslocaram o investimento que deveria ter sido canalizado para o centro histórico, . Se fosse proibido construir nestas zonas  (antigo pinhal e Chão da feira)  o investimento acabaria por recair na vila.

Súbita construção de três trapeiras no edifício da mercearia do século XVIII, onde não havia nenhuma ( a terceira está no lado oposto).

A zona alta da freguesia  e as varandas do Zêzere , bem como Preanes  e outros casos pontuais  são marcas indeléveis de um conceito errado de urbanismo que ofusca o belo, a estética do nosso velho burgo. Nada será como dantes. O progresso não é incompatível com a aposta na recuperação do centro histórico. Desde que seja essa a opção fundamental. Constância não precisa de ser um grande centro urbano. A vida própria de um dormitório traz consigo a destruição de hábitos societários que só  uma comunidade com raízes locais pode garantir.  A população local está cada vez,mais reduzida a algumas poucas centenas, se é caso.  Somos poucos. Mas temos voz! Infelizmente temos muitos eleitos que nem conhecem sequer a nossa história, as nossas tradições, os nossos valores. Aquilo que fazem nas autarquias aqui fariam igual noutra localidade. Constância é, para muitos autarcas, um número. Não há paixão. Só nos lábios que não no coração. É uma desilusão. E cada vez será pior. Desta geração conhece-se a árvore, os seus frutos.  Será difícil a uma autarquia ultrapassar tantos obstáculos. Mas não será completamente impossível. A cidadania organizada em autarquias tais terá de crescer e as máquinas partidárias  terão de diminuir? Assim tenham a arte e o engenho. .Conquistado esse patamar  terão a consagração popular. Será a personalidade, o carisma, o mérito pessoal  que farão a mudança. Por cá já tivemos quem até rasgou o cartão de militante e ainda assim foi convidado a ficar como independente. Porque, apesar de tudo, era maior do que a soma das partes, defeitos à parte.
Mas eu não sou político sou apenas um simples cidadão que já viu a sua vila e o seu património em mãos melhores e com melhores dias.

Uma vila que nem uma ETAR própria tem e que deslocou os habitantes para uma zona afastada da rede de saneamento, não é exemplo de desenvolvimento estratégico sustentado. Ilusões que se pagam caro. Aliás, pagamos todos.


José Luz

(Constância)


PS– não uso o dito AOLP




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