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Leituras inextinguíveis (1) – Amigos até ao fim, uma obra-prima de John le Carré

Em Leituras

Justificação: Com a concordância do jornal Mais Ribatejo, cria-se uma secção com a seguinte especificidade: leituras do passado que não passam de moda, que ultrapassam por direito próprio a cultura do efémero, que roçam as dimensões do cânone da arquitetura, da estética e do estilo, tidas por obras-primas, mas gentilmente remetidas para as estantes, das bibliotecas públicas ou privadas. Livros ensinadores, tantas vezes, e injustamente, tratados como literatura de entretenimento. Não é por acaso que se começa por John le Carré, um dos maiores escritores britânicos do nosso tempo, erradamente classificado como autor de livros de espionagem, quando toda a sua dimensão é um alerta para as manipulações e safadezas do nosso tempo, com espiões ou sem eles. Vamos começar.

Amigos até ao fim, uma obra-prima de John le Carré

John Le Carré

Mário Beja Santos

John le Carré, ao contrário do que alguns snobs alvitram, é um mago da escrita onde a espionagem, as aventuras e as traições são meros ingredientes para compor tramas não só originais como extremamente contemporâneas ao mundo em que vivemos, oferecendo-nos um nível literário que podemos considerar digno de emparceirar na literatura clássica. É verdade que escreveu o mais importante livro sobre a espionagem em tempos de Guerra Fria, o inultrapassável O Espião que Veio do Frio. Mas findo esse período, o seu génio não estiolou, pelo contrário, sempre atento às múltiplas peripécias e transformações, tem escrito sobre barbaridades da indústria farmacêutica, a formação de exércitos privados, as tensões no Próximo Oriente, o que se passou com os velhos espiões que afinal não passaram à reforma e engrenaram em novas causas, entre outras originalidades.

Amigos Até ao Fim, por John le Carré, Círculo de Leitores, 2004, licença de Publicações D. Quixote desenvolve-se, numa densa espiral, à volta da história de dois amigos, Ted Mundy, filho expatriado de um oficial do Exército britânico, mobilizado para o Paquistão; e Sacha, um radical alemão, pequenote, claudicante, mas com uma mente brilhante e uma vontade inquebrantável. O destino pô-los juntos em Berlim nos anos 1960, ambos anarquistas e com vivência comunitária. Iremos percorrer a carreira de Ted, desde a vida diplomática até guia turístico num castelo de Luís da Baviera, entretanto Sacha desaparece da cena e reencontram-se dez anos depois numa receção, Sacha, para estupefação de Ted é agora funcionário da Alemanha de Leste e propõe a Ted uma operação de espionagem: passar segredos de Estado para o Ocidente, apoiando-se nas tarefas diplomáticas, ainda que menores, que Ted desempenha do Leste, sob o disfarce de funcionário do British Council. Andamos numa corrediça entre o passado e o presente, Ted, depois de tanta vicissitude, parece ter encontrado o seu ninho de amor com uma turca, chega de aventuras, tudo isto é descrito com vivacidade, como saltamos até ao Paquistão, depois os estudos em Inglaterra, chegamos à Alemanha, a Berlim Ocidental anda efervescente, aí nasce uma fortíssima amizade entre Ted e Sacha, íntima, muito calorosa (“As relações de amizade têm de aprofundar-se, ou morrem. Recebes o que é necessário para uma sociedade harmoniosa e nada mais. O amor fraterno, a partilha natural, o respeito mútuo”).

E John le Carré, dentro deste bordado se irá transformar numa teia de aranha, afasta-os, estamos agora centrados em Ted Mundy, faz jornalismo e biscata, e depois encontra trabalho no British, vem casamento e filho. Quando tudo parece sedimentar-se, o fogo da juventude ficar para trás, dá-se o assombroso reencontro com Sasha, passara de anarquista a marxista leninista, estava agora dececionado, interessa-se em trair, é preciso que a mentira comunista se desmorone. John le Carré faz sair da cartola um autocarro psicadélico com um grupo de teatro que serve às mil maravilhas para que a pretexto do teatro de Shakespeare Sasha lhe entregue os tais segredos de Estado, tão importantes que os Serviços Secretos Britânicos os repartem com os Primos, ou seja, a CIA. Esta irá entrar em campo, a seu tempo.

Desmorona-se o Muro de Berlim, o impensável acontece, vem aí a reunificação. A vida familiar de Ted estiolou, após o divórcio, ele regressa ao mundo do passado. E Sasha surge de novo. Ted tivera um instituto de línguas em Heidelberg, um sócio especializado em gestão danosa levou o negócio à ruína. Sasha irá surgir naquele universo do radicalismo islâmico, vem inflamado, encontrou patrono para uma academia que irá funcionar como altifalante de alternativa ao capitalismo. É neste novo contexto, em que se prepara a invasão do Iraque e é montada uma operação que pretende mostrar ao mundo que esse mesmo radicalismo islâmico tem acolhimento no mundo ocidental.

As derradeiras páginas desta obra-prima oscilam entre solilóquios premonitórios, Ted apercebe-se que foi atraído para uma cilada, vagueia à volta da escola, anda confuso, os Serviços Secretos britânicos deram-lhe passaportes para ele e Sasha, urge que eles desapareçam, fora montada uma trama ignóbil. E rebentam explosões, os amigos reencontram-se, foram vítimas de uma cabala, mas são demonstradamente amigos até ao fim.

O cinismo, o maquiavelismo de todo este ardil, fica para o fim, como o autor relata:

“O cerco de Heidelberg, como se tornou imediatamente conhecido nos media de todo o mundo, desencadeou ondas de choque através das cortes da Velha Europa e de Washington e foi um sinal claro para todos os críticos da política americano de imperialismo democrático-conservador.

Durante cinco dias inteiros a imprensa e a televisão foram obrigadas a respeitar qualquer coisa de parecido com um silêncio estupefacto. Havia manchetes sensacionais, mas não havia notícias substanciais, pela boa razão de que as forças de segurança tinham agido dentro de uma espécie de estúdio cinematográfico vedado a estranhos.

Um setor inteiro da cidade tinha sido isolado e os seus habitantes, perplexos, tinham sido evacuados para hotéis equipados com pessoal especializado e sem poderem comunicar com ninguém durante a operação.

Nenhum fotógrafo, nenhum repórter dos jornais ou das televisões tinha tido acesso à cena do assalto até que as autoridades tivessem a certeza de que os mínimos vestígios de potencial de espionagem tivessem sido todos retirados para análise”.

Amigos Até ao Fim é a denúncia de um mundo onde se instalou a não-verdade e é possível estarmos permanentemente a ingurgitar falsidades, ou ficar em estado de dúvida, é a manipulação sórdida dos noticiários onde as centrais de intoxicação debitam, hora a hora, as “verdades” que interessam. Porque aquilo que foi a espionagem é hoje um expediente de envenenamento dos espíritos, tornando derrisório o primado da liberdade de pensamento, que aqueles dois amigos até ao fim teimavam em defender, a despeito de muita utopia nos amanhãs que cantam.

Não sei qual é o melhor livro de John le Carré, a pensar nesta infeção das fake news convido o leitor a embrenhar-se nesta obra-prima.

Mário Beja Santos

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