“Deixai vir a mim as criancinhas” – Abusos sexuais na Igreja

Em Opinião

Em 1912, ainda a República era uma criança, Tomás da Fonseca, o ilustre escritor de «A Cova dos Leões», denunciou, na Câmara de Deputados, actual Parlamento, perante a Nação, o padre Joaquim Fernandes Pimenta, pároco da Anadia, que violou e deixou grávidas três raparigas menores, tendo ainda artes para assediar a mulher do seu dele melhor amigo, com a qual foi encontrado a cometer adultério. Alertado pela denúncia pública destes crimes (quem é que hoje, no Parlamento, sem deputados uninominais, se interessa, sem ser em abstracto, com a denúncia destas miudezas?), o padre Pimenta fez as malas, com uma grande calma, e embarcou para o Brasil, à espera que o bispo o mandasse voltar de lá para uma nova paróquia onde pudesse, sem ser conhecido dos habitantes, continuar a seduzir mulheres e engravidar crianças (tática até hoje replicada com grande êxito entre o clero católico, e o de todas as outras religiões e fora delas). Outro caso, aludido nessa sessão da Câmara foi o da noviça Sara de Matos, do convento das Trinas de Lisboa, cometido por um padre jesuíta que não só a violou, como, para encobrir o crime, envenenou e matou. É pena que em Portugal a literatura de crime e mistério, tão brilhantemente apresentada neste jornal por Carlos Macedo, reportada na maior parte a grandes nomes do policial estrangeiro, não tenha atraído nunca os leitores nacionais apesar das brilhantes tentativas de exegese e escrita de Varatojo e Diniz Machado, aliás Deniz Mcshade, se bem me lembro, ou teríamos aqui, nesta tragédia, um caso de faca e alguidar temperado de água benta, um romance que nem o «Maria Não Me Mates Que sou Tua Mãe», daquele desgraçado genial de Seide, capaz mesmo de espantar aqueles espectadores embaçados com os crimes actuais contados todas as manhãs e tardes pela TVI e correlatas, comentados por juntas de sádicos a babarem-se de gozo macabro. Uma jóia!

Todavia, este tema de crimes sexuais contra crianças, mulheres e homens, cometido no âmbito das religiões, agora focado na Igreja Católica, devido a terem escandalizado o actual Papa, com igual escândalo dalguns dos seus, por ele se haver escandalizado com algo tão enraizado na prática antiga e moderna de tantos padres, madres, frades e freiras, é que espanta. Os romanos, por exemplo, donde herdamos a cultura, a Língua e o Direito da Justiça, que é ser torta, tinham um deus, por sinal bem apeirado, Príapo, que se ostentava com todo o esplendor pintado nas paredes das Domus (não sei se da Justiciae também, o que nem ficava mal a tais lugares de Direito), do peristilo aos balnea, à vista a todos, e todas, menores ou não, e ninguém se escandalizava. Suetónio, Luciano e muitos autores latinos falaram disto, e de coisas piores, como quem come tremoços e de modo natural. Até aparecer uma estranha seita, chamada de cristãos, que, como vampiros, bebiam o sangue e comiam a carne ritual de um novo deus na eucaristia, ninguém achou imoral que Tibério, o imperador, p.ex. ( mas a lista abarca quase todos os césares do império), dormisse com crianças ou tivesse o gosto de nadar com elas, os seus peixinhos, na piscina aquecida por escravos, para lhe mordiscarem, num estranho êxtase aquático, longe de ser caso único, como sabia o Eclesiastes, as pudenda (vai assim em Latim porque nem só os políticos actuais podem dizer coisas que ninguém percebe senão eles, os da panelinha, e os poucos eleitores que votam, e é a chamada língua de algodão e vaselina que tudo absorve e penetra).

Mas falava eu das depravações dos padres católicos e como não quero ser coruja entre pardais, nem deixar de contribuir para aquela Comissão Independente dos Abusos na Igreja, agora empossada, embora me pareça um bom bando de anjinhos, vou relatar por alto um caso de adultério, mas podiam ser dezenas, sucedido há décadas, no tempo das almotolias, numa aldeia ribatejana, com um padre que andava amigado com uma senhora casada ( parece que na tal Comissão só podem dar entrada abusos contra menores de 18 anos, como se o pecado sacerdotal de quebra dos votos de castidade não contasse daí para cima, o que chega a ser encantador) de nome Custódia, com grande escândalo público do povo, e ainda mais do sacristão que se fartava, sem êxito, de avisar o pároco que devia moderar-se na luxúria do corpo e no vício. Um dia, que era, à tarde, de Procissão dos Passos, estavam o padre e o sacristão sentados ao soalheiro no adro à espera dalgumas alfaias religiosas trazidas duma igreja perto, quando este último avistou no largo, a dirigir-se para ali, a tal senhora Custódia. Aproveitando a oportunidade disse o sacristão, de modo sardónico, ao padre: – Vem ali a Custódia! E o padre, fazendo-se desentendido: – Qual custódia, aquela onde se põe o Senhor? Não – replicou o ajudante, manhoso. – Aquela onde o senhor se põe!

Tudo anedotas que corriam pelos lugares mais esconsos da nação, cheias de memórias de abusos sexuais do clero por quebra do voto de castidade, reflectindo uma verdade e prática amarga, perigosa de ser denunciada. Assim ou assado, apanhavam por tabela, neste anedotário anticlerical de riso jocoso, aqueles padres que julgavam que todos eram aquele cego da Bíblia que não via nada, antes que Cristo fizesse o milagre de lhe dar vista, como se acredita, e é pena que a não desse também ao resto da humanidade que sempre se evitariam grandes males. Quem conheça a extensa literatura de mais de três séculos da Santa (de pau carunchoso) Inquisição, neste país das laranjeiras, sabe que está repleta de processos de casos de luxúria carnal de padres e freiras (impedidos de casarem, algo contrário à Igreja primitiva, onde até as mulheres exerciam o sacerdócio), e de volúpia, no recato sombrio dos confessionários, contra mulheres, moças, homens e rapazes, assediados por sacerdotes cheios de testosterona, reprimida pelo celibato. No fundo, o mesmo problema de hoje, acrescido do prazer do fruto proibido acerado por internetes viciosas e íntimas que não existiam então. Um desses casos (que pode ser consultado on line em paleográfico), acontecido no séc XVIII, aqui perto de nós no Ribatejo, na freguesia de Casével, conta, com detalhes pertinentes, como o pároco respectivo abusava de uma deficiente mental em casa dela, impedindo os familiares de entrarem, e tudo assim. Não reza o ditado que não há nada de novo sob a rosa do sol? Reza.

Mas esta Comissão dos Abusos Sexuais na Igreja é boa ou má? Do mal o menos. Porém não há que ter ilusões. A ocasião faz o ladrão, a carne é fraca, e donde menos se espera salta um coelho. Depois a hierarquia católica, onde também há pedófilos e desejos carnais carentes reprimidos, vai tirar os criminosos donde abusaram, e metê-los, com caridade de irmãos, onde continuem a assediar as ovelhas, ovelhinhas e borregos do Senhor. O bom Papa Francisco, que como nenhum outro quis, e quer, acabar com este escândalo, bem pode partir tranquilo para o céu dos pardais, pois acabar com os pedófilos e transgressores do celibato na Igreja é ainda pior que desejar torcer a sombra de uma vara direita, para andar ao invés do anexim e da realidade anatómica destes casos. Não vou dizer, é claro, como diz dos pedófilos o André Ventura (e não foi a maior asneira que já disse), e dizia também, no mesmo contexto mas noutra realidade (De quando a Igreja Católica era a religião oficial do reino sem concorrência admitida, antes da instauração em 1911 do actual Estado laico), um dos carbonários que foi roubar a dita azinheira das aparições, em Fátima, que o que devia ser feito era capar os padres. A sério? Julgo que não. Eu aconselharia primeiro a tal Comissão a aconselhar o Papa a acabar com o celibato e permitir mulheres no sacerdócio (já agora por que será que lésbicas, feministas furibundas contra o poder masculino, e outras senhoras respeitáveis, católicas na maior parte, não falam nisto?). Não resolvia tudo mas atenuava. Também acho que instalar câmaras de vigilância na penumbra dos confessionários seria inconveniente e talvez pouco aceite mesmo pelos sacerdotes sérios e com verdadeira vocação cristã que também os há e muitos. Mas que tal recurso impediria os criminosos da fé, e da inocência, de agirem sem peias não há dúvida.

Custa também perceber, neste tempo de denúncia de casos de pedofilia na Igreja, que tenham colocado, e mantenham, numa rotunda de Fátima, um grupo escultórico dos três pastorinhos infantis ajoelhados ante um menir fálico de péssimo gosto. O Cristo do Sermão da Montanha, do amor casto pelos pobres, desprotegidos e crianças, não ficaria lá melhor, braços abertos, sorriso seráfico no rosto macilento, com aquela legenda bíblica do Deixai vir a mim as criancinhas! sem hermenêuticas espúrias nem malícia? Bem sei, aquele é território mariano duma das emanações da dita Sua mãe, de quem Ele diz a certa altura de forma desconcertante «Mulher, que há entre mim e ti?» (in Bodas de Canã, João,I-II), parecendo desvalorizar aquela maternidade humana através do Espírito Santo, que já havia abusado da terna ingenuidade marital de S. José. Uma carga teológica de trabalhos, tudo isto! Amén.

Mário Rui Silvestre

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