O belo, o prazer e os Talibans

Em Opinião

Sem preocupações do politicamente correto. Para chegar à essência da ameaça civilizacional às culturas de base racional, as ocidentais, no nosso caso, vamos designar os talibans como o expoente do islamismo na sua fase atual e o Afeganistão como o seu Paraíso.

É um dado que islamismo se distingue em três grandes linhas, sunitas, xiitas e ismaelitas, e produziu algumas das mais exuberantes obras da humanidade, mas em qualquer das versões é simultaneamente uma religião, uma civilização e uma forma de governo da sociedade, e tem hoje como arte final os talibans e Cabul como santuário.

Os arranha-céus do Dubai, ou de Doha, ou de Riad são «burcas» de vidro e holofotes que escondem uma realidade que alguns analistas ocidentais, adeptos do relativismo, qualificam benevolamente como uma «revolução arcaizante». Arcaico significa o que foi e já não é usado e os talibans não são arcaicos, não pretendem regressar a uma civilização que já tenha existido, eles pretendem impor o mundo de bestialidade de que a nossa espécie se foi libertando ao longo de milénios.

A marcha da humanidade começou com a busca do prazer, da partilha, da celebração, do belo em imagens, em sons, em movimentos. Os talibans pretendem colocar a sua conceção do mundo antes do início dessa marcha. Eles destruirão até as mesquitas de Córdova, ou de Constantinopla, palácios como o Alhambra de Granada, que motivou a célebre frase de Francisco de Icaza no hay nada peor en la vida que ser ciego em Granada. Os talibans querem-nos a todos cegos em Granada!

Os talibans, sob várias designações, ISIS, estado islâmico, califado, alqaeda, são os vingadores da derrota civilizacional dos povos islamizados imposta pelo Ocidente e provocada, em primeiro lugar, pela incapacidade de o islão separar o governo da sociedade do governo de um Deus de coisas tão importantes como a dieta alimentar dos fiéis, o comprimento da barba dos homens e que trata as mulheres com quem estes procriam como animais domésticos, entre tantas outras aberrações. Aberrações que existem noutras religiões, mas que os islamizados impuseram como lei da res publica, um conceito inexistente no islão, porque nele nada existe que não esteja sujeito ao totalitarismo associado ao livro das ordens de um Deus a que atribuíram o nome de Alá.

A derrota civilizacional do islão, assumida pelos talibans, tem por causa primeira a ideologia da recusa da dúvida e do belo e a sua opção pela intolerância dogmática e pelo terror!

A humanidade tornou-se humana, passe o pleonasmo, pela busca do belo, o que é visível nas pinturas rupestres e em esculturas primitivas. Com o homem islâmico, hoje representado pelos talibans, não existiria arte rupestre, nem Rafael, Ticiano, Da Vinci, Velasquez, Rembrandt, nem um Picasso, e os árabes não teriam o quadro da «Ascensão de Maomé». Não existiria Bach, nem Mozart, Beethoven, nem os Beatles. Com o totalitarismo civilizacional dos talibans nem os árabes de Bagdad teriam ouvido o músico Ziriabe. Não existiria ballet, nem os antepassados dos atuais seguidores do mercador Maomé se teriam deliciado com a dança do ventre, porque teriam lapidado as dançarinas!

Para os talibans, além do horror ao belo, existe o horror ao pensamento porque na sua desumanidade também não há lugar para a filosofia, para o penso, logo existo, pois está tudo pensado no Corão, como para os evangélicos ocidentais tudo está na Bíblia, que são, no fundo, livros de etiqueta e regulamentos de disciplina. No islamismo não existe espaço para a dúvida, nem para a razão, nem para o belo, heresias dos infiéis, que no entanto, na sua leitura do Corão, não contemplam metralhadoras, misseis, nem até jipes Toyota!

Os talibans são uma metátese na humanidade e deviam ter sido assim tratados pelos políticos ocidentais, cuja ganância os impediu de entrever o novelo de ódios que se encontrava atrás dos antigos cameleiros que reinam hoje nas monarquias petroleiras, os mandantes das diversas fações de talibans. Em vez de combatidos, estes bandos de bárbaros foram avalizados com o cognome de «combatentes da liberdade», apenas porque serviam para afrontar a URSS, o inimigo do momento e para comprar o «ferro-novo» produzido nos complexos militares ocidentais.

Os povos com sabedoria gerem o tempo da história. Os chineses vão receber de mão beijada os despojos da falta de princípios dos ocidentais que se deixaram encantar pelos seus talibans, que até os adotaram como modelo de intolerância étnica e cultural, replicando as suas barbaridades nas seitas evangélicas americanas e brasileiras, nas milícias de Trump, de Bolsonaro e dos seguidores europeus. A nossa civilização vive sob a dupla ameaça de talibans, uns de camisa de dormir, outros de fato e gravata.

Carlos Matos Gomes

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