O Vampiro de John William Polidori

Viagens ao interior da literatura de crime e mistério (19): Quando o fantástico e a ficção científica se envolvem com o crime e o mistério

Em Leituras

 

Edgar Allan Poe antecipa-se (11 de dezembro de 1847) às irmãs Fox, Léah, Maggie e Kate que, a propósito de uma cause-célebre (“The Rosana Affair”, em 1848), se arrogam vocação e dons de espíritas, detentoras de poderes ESP, se autointitulam as primeiras detetives psíquicas dos tempos modernos.


Arvorando-se publicamente em extralúcidas, sabendo ler com argúcia os “sinais dos seus tempos”, dizem-se miraculadas com um dom raro (que estava em moda na sociedade vitoriana da época).
Descobrindo, disseram, o assassinato de Kosma, conseguem, com uma fraude muito bem arquitetada, dar uma enorme difusão ao espiritismo e às conversas com os mortos, para descobrir assassinos.
Na altura, ficção literária e espiritismo tinham fronteiras ténues.

O Vampiro de John William Polidori

Bem diversas da honesta e pragmática atividade de detetive que, poucos anos depois, Charles Dickens e W. Collins tão bem caracterizarão.
Com o desenvolvimento da literatura fantástica (Jan Potocki, Mary Shelley e o seu “Frankenstein”, William Polidori e os seus vampiros, Henry James e o seu “Turn of the Screw”, …) o universo literário do fantástico começa, pouco a pouco, a penetrar na literatura detetivesca.
No fantástico puro (como num inquérito policial) existe um enigma, uma tradição narrativa do mistério que atinge o seu ápice (ou se consuma) no último capítulo. Mas o nexo causal do desfecho não é racional.
Só que mesmo um desafio à razão, também supõe um inquérito que o explique. Como salienta, na sua obra, H. P. Lovecraft.
Quando a solução do mistério é racional-realista, baseada na lógica dos comportamentos sociais, mesmo anormais, temos o livro de crime & mistério.
Se a resposta é sobrenatural, por opção do autor, temos o fantástico.
Mas a ficção literária ou cinematográfica não é tão linear ou maniqueísta como isso. E tanto pode escolher uma via clara e sem ambiguidades (inquérito criminal clássico, ainda que num clima de aparente magia, gótico ou terror tradicional) ou seguir uma via cinzenta, um limbo inter-áreas, que cria a ambiguidade na resposta e no próprio âmago do texto.
Os históricos nesta área do policial são sobretudo médicos (“Psychic Sleuths”), lutando com o Diabo com as forças da ciência.
A escolha da Medicina, do paradigma do Doutor Van Helsing (em “Dracula”, de Bram Stoker) que recorre às descobertas mais recentes da psiquiatria, na tentativa de liquidar Drácula e compreender o seu escravo, o demente Renfield. Como médico, aceita a realidade do Mal absoluto, metafísico, como parte integrante do universo em que vivemos.
E a Medicina deve conhecer bem o homem, sobretudo quando doente.
Os primeiros “cientistas”, como o Dr. Freuel, de “Marie Melück Blainville”, da autoria de Achim Von Arnim (1824), o erudito Hesselius, de Joseph Sheridan Le Fanu (“In a Glass Darkly”, 1872), ou, do mesmo autor e ano, “The Inn of the Flying Dragon” (puramente policial, na sua estrutura narrativa ), demonstram, uma e muitas vezes, que a resolução do enigma passa por uma dualidade de crivos: o racional, de elucidação lógica e de base científica do enigma, e o mágico, que reativa os mitos eternos da feitiçaria, das velhas lendas, das zonas de sombra, de misticismo, da parapsicologia.

“Case of Charles Dexter Ward” de Howard Philips Lovecraft

Nesta área, destaco, como exemplar (em quase todos os géneros de fantástico ele foi referência) o “Case of Charles Dexter Ward” de Howard Philips Lovecraft, que usa, no seu estilo inimitável, servido por um ritmo palpitante, a tragédia dum pobre rapaz, com um capacidade de reconstituição histórica excelente, uma caracterização e comportamento das personagens (o tema é a possessão de um corpo por um feiticeiro morto, matando uma alma, para o conseguir) credível, uma estrutura central de causar calafrios.
É isto que faz o prazer não mitigado do amador de uma ficção de enigmas, quando o fazem mergulhar no pior inimigo da razão: o mistério metafísico.
Perspetivas de abordagem contraditórias, que dão às obras em que o detetive, misturando dedução e telepatia, onirismo, esoterismo, reencarnação, ao obrigatório percurso do inquérito à descoberta do crime, cria à obra um encanto muito vitoriano (época em que se iniciou a moda do espiritismo, com as obras e proselitismo, entre outros, de Annie Besant e Allan Kardec), com a procura obscura, mas persistente, de uma lógica que explique, mesmo pelo sobrenatural, porque ocorreu o que ocorreu.
As teorias e fábulas esotéricas, que se tornaram muito populares, nos fins do século XIX, nas burguesias ociosas das camadas mais ricas, do Reino Unido à Alemanha, dos Estados Unidos à França, usam como tema de obras de ficção (de qualquer tipo) teorias ou ideias recorrentes de matriz regional, lendária, hermética, recorrendo à astrologia, magia, alquimia, aos mistérios pagãos e aos círculos iniciáticos de todo o tipo e feitio.
Ou casos de fronteiras indefinidas, entre a psiquiatria e o crime crapuloso.
Dr. Jekyll: esquizofrenia ou ciência satânica? Marie d’Aubray Stevens ou Marquise de Brinvilliers (em “Burning Court”, de J. D. Carr): paranoia sádica ou mercenarismo, sem mais?
Como é evidente, estes livros não podiam ser escorraçados dos autores da literatura, dita de crime e mistério.
Mesmo público, mesmas modas, mesmas ideias-força dominantes.
Para os espíritas, como o foi, no fim da vida, o desequilibrado Sir Arthur Conan Doyle (morte de um irmão, que adorava, de um filho), um detetive é igualmente um exorcista.
Podemos, talvez, tentar esboçar um percurso histórico dos que, assumindo até ao fim esta aliança ímpia, criaram os chamados Detetives do Além.

“Moonstone” de Wilkie Collins

O brâmane vingativo de “Moonstone”, de Wilkie Collins (1868); a investigação de Van Helsing em “Dracula”, de Stoker, dois anos antes (1897) da de Flaxman Low (1899) contra o adepto de magia negra Kamalkrane, da autoria de E. e H. Heron, em “Ghosts”; a luta contra Ul-Jabal e a seita iniciática dos SSS, em 1898, em “The Stone of the Edmundsbury Park”, de M. P. Shiel; a deusa egípcia Bast, o tenebroso Anúbis, até o superdotado Dr. Fu-Manchu, combatidos por Sir Denis Nayland Smith, na obra de Sax Rohmer (cerca de doze anos depois); numa palavra, uma crescente caça ao horror e ao oculto, liderada por adeptos ou simpatizantes de um movimento, gerado em parte e protagonizado pela sociedade iniciática “Golden Dawn” (que existiu mesmo).
Surge assim um padrão de detetives combatentes pelo Bem, que nos poderá ajudar a definir o subgénero.
Que cria, enfim, uma criminalidade “contra a própria natureza das coisas”, que cumpre descodificar por especialistas “experientes” e “corajosos”, antes de a combater.
E este espírito é patente entre os supramencionados membros daquela ordem iniciática, em maior ou menos grau, nomeadamente em Aleister Crowley, Arthur Machen, Algernon Blackwood, M. P. Shiel, Bram Stoker, William Hope Hodgson, Conan Doyle, W. B. Yeats .
Será que é um bando de amarelos com superpoderes, postos ao serviço de desígnios imperialistas ao nível mundial, que é combatido pelo infatigável (e sempre bronzeado, mesmo depois de anos de fog londrino) Sir Denis Nayland Smith (o James Bond de Sax Rohmer, oitenta anos antes) ou, de facto, bem vistas as coisas, estamos perante uma seita de iniciados quase semideuses, com poderes ocultos e capacidades quase mágicas, espíritos maléficos, paranormais e infernais que, demiurgos cruéis, se movimentam e comandam as hostes amarelas, sob o disfarce eficaz de um capataz bode expiatório inventado, que, em nome deles dá as ordens, um tal Shaitan oriental, dito Doutor Fu-Manchu?
E Jean Ray, o fascinante flamengo, criador do absurdo Lancelote que é o inimitável Harry Dickson, nunca demais recordado, com a sua seita de adoradores do “Caminho dos Deuses”, os de Baal-Moloch, os do deus Gurruh, seguidores de Rhâna, a Górgona ressuscitada, já percebeu, há muito, que a malévola arqui-criminosa, Georgette Cuvellier, da “Bande de l’Araignée”, obedece servilmente a diretrizes de magos tenebrosos de poderes insustentáveis. Que interminável biografia “satânica” se poderia elaborar, apenas com o acervo literário deste imparável traficante da “Rum-Row” que foi Jean Raymond de Kremer!

 

Raymond Chandler em “The Bronze Door”

Com os anos trinta do século XX, abrem-se, por fim, três caminhos totalmente divergentes (e não apenas no estilo) nesta área: a tendência devedora do género romance-negro americano, socialmente envolvida e realista, onde, mesmo aí, aparecem híbridos de fantástico e policial (raros, é certo): Raymond Chandler em “The Bronze Door” (1939) e “Professor Bingo’s Stuff” (1951), “Blue Ribbon” de William Irish (1949), poucos mais.
Outra via, mais fascinante ainda, é uma zona de fronteira, onde, debaixo de uma carapaça de terror irracional, de fantástico puro, a cheirar a enxofre e cemitério, explode no fim, de forma mais ou menos conseguida (do ponto de vista literário e racional) uma explicação positiva e muito, mesmo muito humana dos aparentes prodígios do Outro-Mundo.
Quase sempre o género crime impossível.
Destacam-se, nesta área de fronteira (muitas vezes com ambiguidade suficiente no tratamento naturalista/racional ou fantástico de algumas obras, para dar ao leitor a possibilidade de escolha final), três nomes: John Dickson Carr, Jean Ray e Hake Talbott.
John Dickson Carr é magistral nas obras que produziu neste campo, mestre incontestado (também) no clima que cria a cada página, com obras que são prodígios de ambiguidade, permitindo sempre duas “leituras”: “The Plague Court Mystery” (1934), “The Devil in Velvet” (1951), “Papa Lá-Bas” (1968), “The Three Coffins” (1935), “The Sleeping Sphinx” (1939) e sobretudo, “The Burning Court” (1937) com dois epílogos, o fantástico e o racional-patológico (Gaudan Cross pode ser uma vítima de uma assassina psicopata, ou o próprio demónio, numa encarnação conjuntural, junto eroticamente à Brinvilliers reencarnada); ou, melhor ainda, o livro “He, who Whispers” (1946), que combina magistralmente o crime impossível com o vampirismo, “The Black Minute” (1940), “The Dead Sleep Lightly” (1943), todas envolvendo o Dr. Gideon Fell, médium por excelência de um Carr esotérico.
Finalmente, no decurso dos anos trinta, surge igualmente, pela genialidade wagneriana de Howard Philips Lovecraft (que foi sempre o “grande inovador”, em quase tudo que toque o fantástico), uma assunção do policial sobrenatural, sem ambiguidades.
Como o são, sem lugar a dúvidas, “The Case of Charles Dexter Ward”, “The Whisperer in Darkness”, “The Thing in the Doorstep”, para citar apenas três.
Por outro lado, na sequência de algumas obras do Ciclo “Cthulhu”, do mesmo Lovecraft, e de alguns dos seus correspondentes/amigos/ discípulos, lançados nos pulp, como “Weird Tales” (1923-1952), “Avon Fantasy Reader”, “Astounding Stories”, “Amazing Stories”, “Tales of Magic and Mystery” e várias outras, começam a aparecer novos e estranhos detetives .
Neste campo ainda, terreno de bizarros detetives de caixão, mais cientistas do oculto que investigadores criminais (permanentes ou ocasionais), encontramos de tudo.
Desde a mitologia egípcia em Sax Rohmer (“The Green Eyes of Bast”, 1920), com o detetive metafísico Jack Addison, há inovações forçadas e banais na invenção de detetives e temas para todos os gostos, nomeadamente a absurda descoberta por Edward D. Hoch, de um detetive de dois mil anos de idade, Simon Ark (“The City of Brass”, “The Judges of Hades”, ambos de 1955).
Mas a justiça mais elementar exige que se reserve um lugar especial para John Silence (1908), o psychic physician de Algernon Blackwood.
Outro lugar extra ainda, para o extremamente fecundo ressurgir de horrores neogóticos de todas as facetas, com os seus investigadores escrupulosos (por vezes amadores neuróticos ou traumatizados), como os criados por Graham Masterton (“Manitou”, “The Djinn”, “The Sleepless”, “The Pariah”, “Feast”) ou toda a obra do velho sobrevivente da geração dos seguidores diretos de Lovecraft, o inimitável Carl Jacobi.
Jacobi é um portento, pois ao criar, para suporte da sua gigantesca obra de mais de quatrocentos contos, a sua exclusiva biblioteca maldita (e fictícia) de livros de magia negra, obras diferentes das inventadas por Lovecraft (Furchbare Kulte, de Herzog, Hydrophinnea, de Gantley, Dwellers in the Depths, de Gaston Le Fee e muitas outras), cria também investigadores racionais, deixando sempre um fim aberto às suas histórias: ou racional ou, se o preferirem, sobrenatural.
Nascido em Minneapolis (Minnesota), em 1908 e morto há poucos anos, Carl Jacobi é um caso excecional de concisão, de um estilo claro e preciso, de uma visão poética do crime e do macabro.
Mas este capítulo não pode ter um fim.
Senão, vejamos: não podemos considerar o “Pêndulo de Foucault”, de Umberto Eco, policial-fantástico? “Behind the Mirror”, de Lewis Carroll? E os primeiros livros de Artur Pérez-Reverte, em especial “La Piel del Tambor”, “La Carta Esférica”, “El Club Dumas”, e mesmo “La Tabla de Flandes”? Na segunda das obras mencionadas, aliás, Reverte introduz, como muito digno sucessor de Jules Verne e Conrad, com uma imaginação sem fronteiras, uma história que, ao mistério e enigma, junta o fantástico, a História, a aventura (marítima neste caso) numa procura do tesouro que lembra Melville e Stevenson.
O que também faz, em “La Piel del Tambor”, onde, aos fantasmas de igrejas barrocas que assassinam, para se defenderem da destruição neoliberal, se juntam o sempiterno fascínio pelos portos (aqui os molhes do Guadalquivir, em Sevilha). Acabando numa pequena obra-prima de mistério (humano).
Ou na “La Tabla de Flandes”, onde pintura, literatura esotérica, lógica matemática, xadrez e assassínio(s) se misturam, desde o século XV até ao fim do XX .
E … não, é melhor ficarmos por aqui.
Polémica aberta, em que não pretendo ter a última palavra.
Mudando agora para outro possível desenvolvimento, temos os detetives do “insólito”, que eu etiquetaria como um matrimónio inovador de ficção científica e policial.
Aqui the sky is the limit e sem esquecermos o pungente drama do “romance negro do futuro”, com uma pequena obra-prima: “Blade Runner”, na visão cinematográfica de Ridley Scott (baseado muito livremente num conto de Philip S. Dick), onde um grupo de replicants humanos, ciborgues com prazo de vida limitado, revolucionariamente, se recusam a aceitar (face a um polícia bounty-killer, talvez ciborgue ele próprio) as suas eliminações (por laboralmente desnecessárias). O filme tem a subtileza e profundidade de uma tragédia grega.
Mas há mais.
Com os anos sessenta, vimos surgir uma infinita (ou não estejamos no universo da ficção científica) variedade de combinações.
Desde as viagens no tempo, paradoxos temporais de todo o tipo, aos aliens de todos os planetas, aos robots assassinos, às novas formas de organização social, gerando novos tipos de lazer, trabalho, riqueza, crime e meios de os resolver.
Como no aterrador “The Running Man” de Stephen King (R. Bachman).
Outra variação, que a, meu ver, concretiza o tipo mais fascinante de todos os romances híbridos de dois ou mais géneros: o das Ucronias, ou se preferirem, do que se diz serem “Universos paralelos”.

“SS-GB – Nazi Occupied Britain” de Len Deighton

Até o aristocrático e erudito Len Deighton se deixou tentar, ao criar, em 1978, “SS-GB – Nazi Occupied Britain”, onde, executado Churchill, os nazis ocuparam a Inglaterra e instalaram lá um regime desse tipo, onde um Comissário da Scotland Yard tem de conduzir o seu trabalho, com um SS à perna.
Ou aos mundos paralelos, especialidade de Randall Garrett, com o seu detetive, Lord Darcy, Investigador-Chefe de Sua Alteza Real, o Duque da Normandia, secundado pelo seu fiel perito em Magia Judiciária, Sean O’Lochlain, num mundo paralelo, onde Inglaterra e França formam, desde a Idade Média, um único país e a Magia substitui a Ciência. (“Too Many Magicians”, “The Eyes Have It”, “Muddle of The Woad, “The Napoli Express”, etc.).
Que tem o seu ápex em “The Dealings of Daniel Kesserich”, obra prima de Fritz Leiber, poema insano sem paralelo, escrito nos anos trinta e só publicado recentemente.
Ou o do “Thieve’s World”, criado pela fantasia de um grupo de escritores de ficção científica de primeiro plano (Poul Anderson, Lynn Abbey, John Brunner, Joe Haldemann, Marion Zimmer Bradley, sob a coordenação de Robert Asprin), onde há crimes, aventuras, magia criminosa, epic fiction e sei lá que mais, temperados com molho Tolkien.
Esta saga deste alegre bando de demiurgos é de leitura obrigatória. Os autores, levaram muito a sério o que fizeram. Imaginam, de forma magistral, com mapas, monumentos, mares e caravanas, estranhas feras e feiticeiros, um mundo barroco, ucrónico e fascinante.
Que nos faz imaginar que obra-prima resultaria de recriar, por uma equipa coordenada por H. G. Wells, Tolkien e Isaac Asimov, o espantoso “Tlon Uqbar Orbis Tertius”, sob coordenação de quem o imaginou: Jorge Luis Borges.

 

“Caves of steel” de Isaac Asimov

No campo do crime & mistério na investigação médica, duas excelentes séries: a de Murray Leinster, com o seu médico itinerante (“Doctor of The Stars”, “This World is Taboo”, “S.O.S. From Three Worlds”, etc.).
E a de James White (“Hospital Surgeon”, “Star Surgeon”, “Major Operation”).
No campo da investigação criminal clássica a magnífica Saga de Isaac Asimov, com um detetive – robô (R. Daneel Oliwaw), com os romances “Caves of Steel”, de 1954 e “The Naked Sun”, este de 1957. Mais o que se lhe seguiu, anos depois.
Destaco, pelo seu encanto muito especial, que resiste ao tempo, o mistério de “Currents of Space”, pequena obra-prima de suspense e enigma policial, no estilo dos anos cinquenta, que Asimov inclui na colossal Saga de “Foundation”.
Não esqueço ainda os vinte e tal contos, todos de temática policial, de “Asimov’s Mysteries”, de 1968, com o Dr. Hurth, espécie de Nero Wolfe galáctico.
Cabe-me mencionar ainda as magníficas histórias de Jack Vance, de cariz policial dedutivo, em “Galactic Effectuator” e as gestas de espionagem, com o agente, capitão de fragata, Dominic Flandry, em diversas aventuras de “Earthman Agent”, da autoria de Poul Anderson, o melhor neste género híbrido.
Que, não se contentando com este, cria a série detetives temporais (“Time Patrolmen”, 1981 e seguintes).
Como o tenta também, com textos de valor muito desigual, H. Beam Piper (“Paratime Police”).
Mas Poul Anderson não fica por aqui. Romance negro, com as obras “Survival Technique”, 1957, “License”, 1957, “State of Assassination”, 1959, onde as guerras são substituídas, “num futuro (?) incerto”, pela eliminação seletiva de líderes inimigos, ou pela cartelização dos sindicatos do crime organizado, sucedendo aos exércitos.

 

“Operation Chaos” de Poul Anderson

No ciclo “Operation” (“O. Salamander”, “O. Changeling”, “O. Incubus”, etc.) uma dupla (um lobisomem, Stephen Matuchek e uma bruxa, Ginny), atuam num mundo onde a magia substituiu a ciência e lá fazem, como podem, de Tommy & Tuppence.
Poul Anderson também engendra inquéritos policiais à Sam Spade, com o seu mestiço de norueguês-japonês, Trygve Nakamura (“Perish by Sword”, 1959, “Murder in Black Letter”, “Murder Bound”, 1962, “Gentle Way”, 1960, “Pythagorean Romaji”, 1959, “A Stab in the Back”, 1960, “Dead Phone”, 1964).
Mas o forte de Poul Anderson, o seu violino de Cremona, são os pastiches de Sherlock Holmes, de que se confessa apaixonado admirador e em que é exímio.
Coincidência: o herói da série de temática policial Manse Everard (“Time Patrolman”) começa por se cruzar com o homem de Baker Street, em 1894, numa versão nova da “Tragédia de Addleton” (“untold case” de Watson).
E Poul Anderson continua a emular Conan Doyle, com o detetive marciano Syaloch (espécie de cegonha, fumadora e executante exímia de um horrendo instrumento musical) no “The Martian Crown Jewels”, de 1958.
E dando vida a uns ursinhos vitorianos, “Hoka”, que (re)investigam primorosamente “The Adventure of the Misplaced Hound” (of Baskerville …) e “The Napoleon Crime” (not six … desta vez).
Faz surgir, por fim, o detetive espacial Eric Sherringford, réplica futura (ou descendente) de Holmes, como de imediato se deduz pelo nome, em “The Queen of Air and Darkness”, de 1971.
Sem sair do universo Holmesiano, poderíamos ainda referir Fred Saberhagen e a sua série iniciada com “Séance with a Vampire” e “Holmes-Dracula Files”, ou ainda o curioso livro de Robert E. Hall (nascido em S. Francisco, EUA, 1941) “Exit, Sherlock Holmes”, que nos prova ser Holmes um ciborgue de um futuro longínquo, enviado a 1880, para libertar o mundo vitoriano dum turista indesejável: James Moriarty!
Tendo em conta o glacial comportamento de Sherlock, vemo-lo, de facto, muito bem na pele de um ciborgue ou robot, de conceção topo de gama.
De resto, seria outra obra, de tamanho igual a esta, referir, mesmo por alto, tudo o que foi concebido misturando, em diferentes combinações, policial e ficção científica.
Os maiores nomes da designada “Science-fiction” escreveram obras neste campo.
Além dos autores mencionados, recordo de novo pela criatividade excepcional, Hal Clement, Theodor Sturgeon, Ron Goulart (de fabulosa imaginação), Marvin Karlins, Katherine Mac Lean, James Edwin Gunn, Larry Niven, Lloyd Biggle Jr, Alex Panshin e muitos mais.
Quatro outros nomes se agigantam, no policial do futuro, como figuras que atingem quase a dimensão de clássicos da literatura em geral.

“Farenheit 451” de Ray Bradbury
“Farenheit 451” de Ray Bradbury

Em 1953, o norte-americano Ray Bradbury publica “Farenheit 451”, retrato dantesco de um mundo que é a pungente caricatura do Macarthismo.
Alfred Bester, no mesmo ano, com o seu “Demolished Man”, dá-nos uma verdadeira tragédia grega, de crime e expiação, um portentoso hino à humanidade, onde o crime é mero pretexto para analisar quão pretensiosa é a ilusão que cada um tem, de que é único, no espaço e no tempo.
A série “Robot-Daniel Olivaw”, de 1954 e 1957, de Isaac Asimov, completada mais tarde por um terceiro volume, que acabou, até, por se entrelaçar na sua imensa saga “Foundation”, constituiu um dos mais excelentes libelos deste escritor de espírito livre, contra o racismo e os preconceitos xenófobos, tendo aqui como suporte ficcional, o combate ao crime.
“Isolation”, de Greg Egan (1992) constitui um retrato realista e talentoso do pesadelo hiper-securitário do sistema paranoico em que vivemos.
No campo de policial sobrenatural (universo paralelo, conhecimento baseado na magia, não no positivismo tecnológico) surgem, atualmente, obras que fazem eclodir associações estranhas, encontros casuais que nunca aconteceram (ou teriam acontecido?), como referi miudamente na pródiga bibliografia dedicada a Sherlock Holmes.
Carnacki renasce (Rick Kenneth e A. F. Kidd, em 1992, em “Cheyne Walk”), como o fazem o sinistro Jekyll-Hyde (“Dr. Jekyll and Mr. Holmes”, de 1979), graças a Loren D. Eastman, como o fazem igualmente Robert Bloch e Andre Norton, em 1990 (“The Jekyll Legacy”) e J. P. Naugrett (“Le Crime de Mr. Hyde”, de 1998).
Nesta ressurreição do gore participam, entre outros, além dos atrás referidos, Graham Masterton, Dean Ray Koontz, James Herbert, Peter Straub, e vários franceses.
Mais fascinante ainda, é a criação, pelo primeiro, de um detetive “extraper” (telepata), Lincoln Powell, que persegue um odioso assassino (e magnata), Ben Reich, no ano 2301 D.C.
O americano Alfred Bester (18 de dezembro de 1918/30 de setembro de 1987), autor de primeira água em ficção-científica, concebe em “Star Terminus”, em 1956, assim como no outro elemento dum díptico, “Demolished Man”, que já atrás referi, dois dos mais fascinantes thrillers da primeira metade do século e uma história de “vingança à Monte-Cristo” que, uma vez lida, dificilmente esqueceremos.
Insiste, no ano seguinte, com “Fondly, Fahrenheit”, uma subtil transferência da mente de um robô psicopata e serial killer, para o seu proprietário.
Atinge-se o máximo quando, numa carta à redação do “The Magazine of Fantasy And Science-Fiction”, Theodore R. Cogswell diz que morreria feliz se visse publicar-se uma história que cumulasse três temas super-utilizados, de forma verdadeiramente original: paradoxos temporais, pactos com o diabo e crimes num quarto fechado.
Assim o disse, assim tentou fazê-lo, ele próprio.
Como o tinham feito, aliás, simultaneamente, estimulados pelo agressivo leitor-escritor, Isaac Asimov e Miriam Allen de Ford.
São eles: “The Brazen Locked Room” (Asimov), “Time Trammel” (De Ford), “Impact with The Devil” (Cogswell).
Estamos em 1956. E nunca mais, até hoje, se terá ido tão longe neste desafio ao impossível, na imaginação criadora fast acting.

Carlos Macedo

Deixe uma resposta

Your email address will not be published.

*

Recentes de Leituras

Feedback
Ir para Início