Custa acreditar: o grande escritor Somerset Maugham andou em missão de espionagem

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Seguramente um dos mais apreciados escritores britânicos do século XX, com aficionados entusiastas entre as novas gerações, autor de romances incontornáveis como Servidão Humana ou O Fio da Navalha, contista prodigioso, novelista exímio, um talento irreprimível para dissecar as paixões humanas, é com surpresa que o vemos como pioneiro da literatura de espionagem, uma viagem autobiográfica sobre o seu trabalho para os Serviços Secretos Britânicos na I Guerra Mundial, surpresa que garante uma leitura compulsiva e comprova que a espionagem não é tema de segunda ordem: Ashenden, O Agente Britânico, por Somerset Maugham, ASA, 2021.

Ashenden é Somerset Maugham, vamos vê-lo na Suíça, em situações de alto risco, fazendo desfilar personagens que vão do insólito ao grotesco, tudo na neutral Suíça, a sua derradeira missão é assistir a ascensão de Lenine e Leon Trótski, o governo de Kerensky foi derrubado, tudo está a correr bem para o inimigo alemão, Somerset Maugham chegou tarde, a Rússia sai da guerra.

O autor resolve jogar o jogo da verdade, como descreve no prefácio: “Este livro tem por base as minhas experiências no Departamento de Informações durante a guerra, alteradas para efeitos ficcionais”. Ele vai insistir que o livro é uma obra de ficção, procura apagar-se: “Grande parte do trabalho de um agente é invulgarmente inútil. O material que ele oferece para histórias é fragmentário e desconexo; é o autor que tem de o tornar coerente, dramático e provável. Em 1917 fui à Rússia. Fui enviado para impedir a Revolução Bolchevique e para manter a Rússia na guerra. O leitor saberá com certeza que os meus esforços não foram bem-sucedidos”. Ele é já um escritor altamente credenciado quando foi recrutado para trabalhar nos Serviços Secretos Britânicos. “Ashenden estava familiarizado com várias línguas europeias e a sua profissão era um excelente disfarce, pois com o pretexto de estar a escrever um livro podia visitar qualquer país neutro sem atrair atenções”. O seu chefe será R, que logo adverte: “Se as coisas correrem bem, não receberá qualquer agradecimento, e se correrem mal, não terá qualquer ajuda”.
As peripécias de Genebra estão ao melhor nível dos grandes autores da espionagem: agentes duplos que não escondem a chantagem, que ameaçam trocar as fontes de informações se não lhes derem mais dinheiro; interrogatórios da polícia suíça, com sérias dúvidas que Ashenden se limite a andar a procurar inspiração naquele mundo em guerra; enigmáticas damas, como uma tal Miss King, que trabalha para uma baronesa austríaca, Ashenden procura a aproximação, Miss King corta-a direito, não deseja travar conhecimentos com estranhos, no entanto a baronesa convida o agente britânico para um jogo com um certo paxá, anda por ali também um príncipe, é nisto que Miss King adoece gravemente e pede a presença de Ashenden, tem um segredo para lhe revelar, morre em convulsão, a única palavra percetível que diz antes de morrer é Inglaterra; e aparece o mais espantoso fanfarrão, o mexicano calvo, saberemos que se chama o general Camora, Somerset Maugham aproveita para nos dar dele uma descrição inultrapassável, e numa simplicidade que fascina: “Era um homem alto e, embora mais magro do que gordo, dava a impressão de ser muito forte; estava vestido com elegância, num fato de sarja azul, com lenço de seda dobrado no bolso do peito do casaco, e tinha uma pulseira de ouro. As suas feições eram boas, mas um pouco maiores do que o normal, e tinha olhos castanhos e reluzentes. Não possuía de facto qualquer espécie de pelo. A pele amarela era suave como a de uma mulher e não tinha sobrancelhas nem pestanas; na cabeça trazia uma peruca de um tom castanho-claro, bastante comprida, com as madeixas arranjas numa desordem artística. Isto e o rosto macilento e liso, aliado à indumentária elegante, dava-lhe uma aparência que, à primeira vista, era um pouco chocante”. E que histórias este mexicano não nos irá proporcionar, sempre a fazer gala de ser um mulherengo de truz, cometera os seus disparates, enganando-se em gente que deve liquidar.

W. Somerset Maugham por Bernard Perlin
W. Somerset Maugham por Bernard Perlin

Ashenden não trabalha só em Genebra, é obrigado a ir a Paris, e é nesta deambulação que nos confessa que leva uma vida calma e monótona de um funcionário público: “Via os seus espiões em intervalos regulares e pagava-lhes dos salários; quando conseguia arranjar um novo, contratava-o, dava-lhe as suas instruções e mandava-o para a Alemanha; esperava pelas informações que lhe chegavam e despachava-as; ia à França uma vez por semana conferenciar com um colega do outro lado da fronteira e receber as suas ordens de Londres; visitava o mercado no dia do mercado para receber qualquer mensagem que a velha vendedora de manteiga lhe tivesse trazido do outro lado do lago; mantinha os olhos e os ouvidos bem abertos e escrevia longos relatórios que estava convencido que ninguém lia”. E dão-lhe uma missão terrível, era imperativo liquidar Chandra Lal, um temível agitador de rebelião dos indianos contra os britânicos na Índia, Chandra tinha a ajuda dos agentes alemães, missão essa que será bem-sucedida, fazendo-se recurso a uma grande paixoneta do indiano por uma espanhola, usada como marioneta. Inevitavelmente, há traidores e traições, é o caso do inglês casado com uma alemã, houve que lhe armar uma cilada, eram tempos em que se tudo se resolvia rapidamente com um pelotão de fuzilamento. E estamos chegados a um desabafo do embaixador, até parecia não apreciar muito o Ashenden, temos aqui outra descrição notável do Somerset Maugham, e aqui ele põe à prova o seu brilhantismo que usou no romance, novela, conto e dramaturgia, o embaixador amou alguém e simula estar a contar uma história, é um dos momentos mais pungentes deste romance, como sempre o escritor mostra-se eloquente a apreciar o lado inesperado, romântico e ridículo da vida, Sir Herbert agora Witherspoon é indiscutivelmente uma das figuras mais poderosas de toda a ficção deste notável escritor. Temos a viagem de Nova Iorque para São Francisco, a travessia do Pacífico num barco japonês até Yokohama, depois viaja até Tsuruki, depois chega a Vladivostok, Ashenden toma o Transiberiano até Petrogrado, vai acompanhado por um norte-americano, Harrington, outra figura de gabarito, inesquecível, somos imersos numa atmosfera revolucionária, contacta com gente ligada a subversão, enfrentamos paixões russas, também não iremos esquecer tão cedo Anastasia Alexandrovna, estala a revolução na noite de 7 de novembro de 1917, os bolcheviques estão na rua, chegou a hora de fugir ao tiroteio, a missão falhou.
Leitura imperdível, lê-se tudo com imenso respeitinho pelos sucessos e dissabores que espiar acarreta.

Mário Beja Santos

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