Joseph Conrad

Leituras inextinguíveis (41): Essa ténue fronteira entre o Bem e o Mal, os tormentos do colonialismo

Em Leituras

Com a concordância do jornal, criou-se uma secção com a seguinte especificidade: leituras do passado que não passam de moda, que ultrapassam por direito próprio a cultura do efémero, que roçam as dimensões do cânone da arquitetura, da estética e do estilo, tidas por obras-primas, mas gentilmente remetidas para as estantes, das bibliotecas públicas ou privadas. Livros ensinadores, tantas vezes, e injustamente, tratados como literatura de entretenimento.

Não sei se existe uma outra narrativa tão encriptada, tormentosa, sibilina, visionária como O Coração das Trevas, de Joseph Conrad, uma indiscutível obra prima cuja importância e significado ultrapassa a sua altíssima qualidade literária. Não é romance, nem uma novela típica, muito menos uma noveleta, Conrad impôs uma arquitetura literária, tipo récit, que abre com uma descrição dentro de um navio, onde se aguardam condições de navegabilidade, e somos depois conduzidos para o continente africano, num vasto rio inominado, como, genericamente, as referências geográficas são difusas, exigindo uma tensão concentracionária para o mundo impenetrável por onde se irá processar uma viagem até encontrar Kurtz, supostamente um monitor de civilização que o narrador encontrará em adiantado estado de doença numa atmosfera delirante, surrealista, como que demónica.

Marinheiros experimentado, Conrad serve-se de um marinheiro, de nome Marlow, no fundo a imagem virtual da consciência do próprio autor. Como escreve o tradutor e prefaciador desta edição da Imperial Estampa, Aníbal Fernandes, faremos uma subida iniciática a esse rio (seguramente o rio Congo ou Zaire) em direção ao coração do Mal, iremos sorver os múltiplos sinais da exploração colonialista e imperialista instalada na região. “Marlow entra em cena quando Kurtz já é quase invisível, adorado como um Deus pelos indígenas, confundido com a própria selva e as suas trevas. Marlow tende para Kurtz, esse anjo exterminador; quer dizer, tende a fundir-se com ele, com a sua grandeza maligna. A morte de Kurtz será a solução providencial do destino”.

Tudo começa abordo de uma chalupa de recreio, em pleno estuário do Tamisa, bom cenário para evocar um espírito do passado. Marlow virá, olhando em derredor, que aqui já foi um dos lugares mais selvagens do mundo, correra muitos mares, aproveitou aquela pausa para falar da sua experiência pessoal, como subira um rio e encontrara o coração das trevas. Dá conta de ter entrado ao serviço duma sociedade mercantil, o médico apurou-o para o serviço, começa a viagem. “Parti num vapor francês que fazia escala por todos os danados portos que eles lá têm, e, segundo percebi, só para desembarcar tropa e funcionários da alfândega. Ia observando a costa. É esta debruçado para um enigma, observar uma costa à medida que desliza ao longo do navio. Lá estava ela – risonha, macambúzia, convidativa, grandiosa, medíocre, insipida ou selvagem, mas sempre calada e com um ar de quem nos diz um segredo: Vem cá e adivinha!. Orla de floresta colossal, de um verde tão escuro que parecia negra, franjada de espuma branca e a correr direita, como traçada a régua até longe, muito longe, no mar azul de cintilação esfumada em névoas rastejantes. Era feroz, o sol, e a terra parecia luzir e escorrer vapor. Aqui além, pequenas manchas cinzento-esbranquiçadas formavam cachos na altura da rebentação, às vezes com uma bandeira a tremolar por cima”.

Joseph Conrad

E assim se chega à foz do grande rio, Marlow conta que o barco que irá capitanear estava avariado, começa uma espera que lhe permite observar o mundo colonial: “Trazidos de todos os recantos da costa e a coberto da maior legalidade dos contratos, perdidos num meio adverso e alimentados de forma estranha ao seu regime, caiam doentes, faziam-se inúteis, altura em que eram autorizados a procurar de rastos o repouso”. E começam as referências ao senhor Kurtz, um chefe de posto, transaciona marfim, é muito apreciado na Administração Central segue-se a descrição do lugar, o administrador informa-o que o senhor Kurtz está muito doente, o barco é reparado e fica em condições de partir, inicia-se uma viagem entre a Luz e as Trevas, aumenta a curiosidade em conhecer Kurtz, são parágrafos inspirados os que escreve Conrad: “Subir o rio era o mesmo que viajar para trás, até às primeiras idades do mundo, quando a navegação transbordava da terra e as árvores reinavam. Uma torrente deserta, um grande silêncio, a floresta impenetrável. O ar era quente, espesso, muito pesado e mole. A luz solar não tinha alegria. Longos troços do rio deserto perdiam-se por lonjuras de enorme sombra”. E, mais adiante: “Troços de rio abriam-se e logo se fechavam atrás de nós, como se a floresta avançasse lentamente para a água, disposta a barrar-nos o caminho de regresso. Penetrávamos mais e mais profundamente no coração das trevas. Que silêncio lá vira!”. Aqui e acolá há encontros com vestígios da civilização, caso do Posto do Interior, é aí que Marlow encontra um livro abandonado que tem a ver com problemas de navegação, mete o livro no bolso, a viagem prossegue, toda aquela vegetação é intimidante, espectral, ao nevoeiro serrado, uma cadeia de baixios estendidos pelo meio do leito, o caminho começa a ser cada vez mais apertado, aparecem rostos entre a folhagem, seres humanos cor de bronze, desencadeia-se o tiroteio, o timoneiro é trespassado por uma vara de zagaia, ultrapassou-se o perigo, Kurtz está próximo, ficamos a saber que fizera uma parte da sua educação em Inglaterra. A Sociedade Internacional para a Supressão dos Costumes Selvagens encarregaram de fazer um relatório, Kurtz cumpriu, via-se nitidamente que estava enlouquecido, e dá-se finalmente o encontro com Kurtz, diálogos incongruentes, e da sua descrição passa-se para uma aparição feminina, iremos saber que foi a mulher que o amou profundamente: “Tinha a cabeça erguida e cabelos penteados em forma de elmo; tinha polainas de latão até aos joelhos, pulseiras de arame de cobre até aos cotovelos, um sinal escarlate em cada face bronzeada, inúmeros colares de contas de vidro no pescoço; coisas estranhas, amuletos, pedras de feitiço penduradas à volta do corpo. Devia trazer em cima dela o valor de muitas prezas de elefante”. Kurtz entregará a Marlow um maço de cartas, depois de lhe fazer algumas confidências, de lhe ter falado dos seus sonhos, vivia agora numa treva indevassável. E segue-se a mais encriptada dimensão de Kurtz:

“No marfim daquele rosto vi uma expressão de orgulho sombrio, indomável poder, de abjeto terror – de um desespero intenso e sem esperança. Naquele supremo instante, de integral conhecimento, estaria ele a reviver a vida em todo o pormenor, com os seus desejos, tentações e renúncias? Deu um grito sussurrado a uma imagem qualquer, a uma visão qualquer – gritou duas vezes, um grito que não passava de sopro…

Marlon Brando no papel de Kurtz no filme Apocalypse Now, de Francis Ford Coppola

‘O horror! O horror!’”. Marlow será assediado para entregar aquela correspondência, resistirá. Estamos de novo no Tamisa fim de história, a viagem vai recomeçar. “O horizonte tinha um banco de nuvens negras atravessado, e o calmo caminho das águas, que leva aos confins da terra, corria escuro sob um céu sombrio – dir-se-ia que ao levar-nos ao coração de infinitas trevas”.

Récit ou parábola sobre o coração negro do homem, no caso em pleno continente negro, Kurtz é um atormentado e visionário, transita entre o Bem e o Mal, ao longo de todas aquelas peripécias da viagem pelo grande rio assistimos ao esclavagismo, à exploração, ao medo das trevas. Mas que grande obra-prima! Tantos segredos para decifrar em tanto simbolismo, onde se pode ver o nosso tempo.

Mário Beja Santos

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