A nova igreja dos comentadores dos últimos dias

Em Opinião

Quando vejo, ou oiço um comentador na televisão os meus pensamentos vão para um senhor há muito falecido, chamado Vasco Jacob.

O senhor Vasco Jacob, era militar reformado em Tomar, fora casapiano, e atleta de natação. Durante dezenas de anos, gratuitamente, o senhor Vasco Jacob ensinou os jovens de Tomar a nadar no rio Nabão, entre a ilha do Mouchão e o Estádio Municipal. Diariamente, no Verão, de manhã cedo para as meninas e de tarde para os rapazes, o senhor Vasco Jacob ensinava os rudimentos da natação de bruços, os movimentos de braços e os de pernas, primeiro com as crianças suportadas por um cinto preso por uma roldana ao ramo de uma árvore, depois, do outro lado do açude, com umas boias de cortiça, até cada um ganhar autonomia e avançar para outros estilos e para a competição.
Mais tarde, nos anos 60, foi construída uma piscina municipal, a que foi dado com toda a justiça o nome de Vasco Jacob e aí continuaram as aulas.
Gerações de jovens de Tomar aprenderam a nadar com os ensinamentos e os exemplos do senhor Vasco Jacob. Nunca lhe ouvi um comentário. Ele ensinava os fundamentos do nadar, os princípios, porque flutuamos, porque devemos realizar certos os movimentos, como devemos respirar.
O senhor Vasco Jacob explicava e ensinava com arte e ciência. Não comentava, não confundia, não vendia opiniões sobre o que não sabia. Nunca diria, como está implícito nos comentadores: não sei, mas passo a explicar.
Está em curso uma campanha de publicidade para um departamento de uma estação de televisão americana e nos anúncios surge uma alargada frente de comentadores que parece a primeira vaga de uma linha de partida para a maratona, ou de lanceiros a preparar uma carga, tipo a carga da brigada ligeira, título de um filme cujo guião se baseia no desastre militar da cavalaria britânica liderada por Lord Cardigan.
São muitos os lanceiros desta brigada de comentadores. Conheço poucos. Penso que vão comentar, mas não sei, como dizem os brasileiros, que apito tocam, o que sabem de ciência certa, que percurso de vida tiveram, de que furna saíram. A maior parte deles presumo que farão o costume nestas atividades: debitar umas opiniões alinhadas com os preconceitos ideológicos que os enformam.
Isto é, não dominando o essencial das matérias que comentam (salvo algumas, poucas, exceções — que dificilmente poderei considerar como honrosa, dada a companhia), não dominando os métodos de análise, nem da ciência de base, falarão do flutuar sem conhecerem a lei de Arquimedes (haverá quem julgue é graça de Deus, milagre), falarão do nadar sem conhecerem os princípios da dinâmica do movimento de um corpo num fluido. Falarão de democracia sem saberem nem de nome Platão, ou Aristóteles, falarão de lógica sem saber o que é um silogismo, no Verão saberão de incêndios e de calor, e no Inverno de cheias e de frio, quanto à culinária basta o hambúrguer. Sentenciarão o mal e o bem sem cuidarem em que contexto ocorreram os factos. Falarão de justiça como se ela se resumisse às salsichas que saem dos tribunais sob forma de sentenças, ou de medidas de coação.
Há anos, numa vinda de um papa a Portugal, vi um destes seres comentadores entrevistar um cardeal da comitiva, este com as vestes cardinalícias (um tanto ridículas para o meu gosto, mas não é esse que conta, sim o contexto). Querem acreditar qual foi a primeira pergunta ao hierarca da Igreja, em visita oficial , a criar ambiente: Belo fato! “Nice suit sir!”
A propósito de religiosos, já agora, na lista de comentadores não descobri até à data nenhum sacerdote, de qualquer igreja, alguém que comente a nossa salvação! É uma falha imperdoável que os agentes dos deuses não possam comentar o estado das nossas almas!
Também não vi, mas deve ser falha minha, entre a equipa de comentadores quem tenha das artes uma ideia consolidada, seja sobre literatura, cinema, teatro, pintura, dança, sobre a arte de pensar. Dúvida: sobre a dúvida, alguém tem alguma coisa a declarar, ou já declarou alguma coisa? Nada. Os comentadores são famosos? As elas vão casar com o agricultor, e os elas com a massagista?
Quanto à dúvida, já do antecedente, na pré-história do comentário, a dúvida era uma heresia para os comentadores de televisão. Comentador que se prese, não duvida, se duvida não é comentador. Se diz assim assim. é um empata! Não pode estar no mercado. Na feira do mercado do comentário, como nas feiras em geral, o peixe é sempre fresco, a fruta é sempre de última apanha, os melões estão sempre no ponto, não há batatas podres nem nabos secos. Nas feiras de gado não há cavalos coxos, nem galinhas com febre, nem coelhos com mixomatose! O comentador afirma!
E, por princípio, afirma que «isto está tudo mal»!
Deus nos livre dos comentadores que relativizem! Abrenúncio !
Por fim, este working group, esta força do comentário, este team, ou plantel, está anunciado como adjudicado por uma empresa dos Estados Unidos, da Warner Media, que se chama Cable News Network, em português Rede de Notícias por Cabo. Tem sede em Atlanta, nos Estados Unidos. Julgo que nos querem prender com um cabo, ou uma trela. Eu evitarei tanto quanto me for possível.


Vamos ter, pois. a visão atlântica do mundo através destes leitores e teólogos. Alguns a receberão como os bons cristãos recebem mensagens de bom comportamento pela sua Bíblia e pela exegese dos seus santos doutores, como os judeus acolhem os comentários da Tora e pelos seus Rabinos, como os muçulmanos os tomam do Corão pelos e seus ayatolhas, como os bantus as interpretam através dos seus feiticeiros.
Como sou agnóstico, vou procurar pensar com a minha cabeça. Também vejo os jogos de futebol sem comentários… Aborrece-me que um comentador me explique um discurso que acabei de ouvir, um espetáculo que acabei de ver, um penalti, quase sempre, ou muitas vez, através de um explicador lerdo ou avençado, com bilhete de claque.
Tomo por princípio que o comentador me quer meter os dedos nos olhos, ou colocar antolhos, e dispenso essas atitudes, mesmo que bem intencionadas, o que é raro. Cá irei escolhendo o meu caminho, como diz o Sérgio Godinho com a cabeça entre as orelhas.
E volto ao velho Vasco Jacob, prefiro aprender a nadar com quem sabe, do que escutar comentários de sobre como nadam os amigos e os inimigos e sobre o modelo dos seus fatos de banho e ouvir teses e comentários sobre os afogados e a incúria do criador que não dotou os humanos de guelras, e os governos que não colocam um nadador-salvador ao lado de cada banhista.
Carlos Matos Gomes

 

 

 

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