Os 39 Degraus, o clássico de John Buchan, que mantém inúmeros admiradores

Viagens ao interior da literatura de crime e mistério (13): Quem vigia quem e a heroica solidão do espião

Em Leituras

Daniel Defoe foi precursor de inúmeros géneros literários.
Inovador absoluto, por exemplo, em “The Life and Strange Surprising Adventures of Robinson Crusoe of York, A Mariner”, onde, de forma magistral, ilustra as relações de cada homem com Deus e um Universo hostis.
Mais excecional a forma como traduz, em linguagem da época, a inevitável solidão dum náufrago, enfrentando, absolutamente só, perigos desconhecidos, doenças e carências de todo o tipo. Como, com igual talento, relata a peste de Londres (“Um diário do ano da peste”) e faz um impiedoso quadro da sua época em “Moll Flanders”.

Eric Ambler

Mas Defoe tinha uma personalidade complexa. Foi, ainda, na vida real, um espião (bem pago) para governos de whigs e tories.
O facto não constituía novidade na Inglaterra dos séculos XVII e XVIII.
Antes ainda, no último quartel do século XVI, na Inglaterra que Henrique VIII criara, eram espiões de sua filha Isabel I dramaturgos como Anthony Munday, Chapman Taylor, Ben Johnson, Christopher Marlowe (que foi assassinado por outros agentes do serviço secreto por ordem de Sir Francis Walsingham, em 1593, com peripécias dignas de um livro de John Le Carré) e, sem qualquer dúvida, William Shakespeare. Poderia continuar com Beaumarchais, Choderlos de Laclos e muitos outros, noutro século e país, mas parece-me desnecessário.

Os 39 Degraus, o clássico de John Buchan, que mantém inúmeros admiradores

Desde muito cedo, os agentes secretos dificilmente poderiam resistir à tentação de (d)escrever as suas perigosas aventuras e, ao não o fazerem, outros as ficcionaram, fazendo-o por eles.

Os 39 Degraus, o clássico de John Buchan, que mantém inúmeros admiradores

Para corporizar com verismo a génese deste tipo de ficção (eternizando as peripécias vividas), remeto-me a um país recém-nascido onde, em 1821, nos aparece alguém que nos delicia com o que se pode considerar uma bela história de agente duplo: Fenimore Cooper, em “The Spy” (“O espião”).
Harvey Birch, o herói da história, merece as seguintes palavras de George Washington, ao ser morto: “H. Birch foi sempre um servidor fiel e desinteressado da pátria. Era um espião do “Território Neutro” … morreu como tinha vivido, dedicado ao seu País e mártir da liberdade”.

Uma bela ilustração de Miguel Strogoff de Júlio Verne

E com um pouco de bonomia e latitude de análise, podemos encontrar (com alguma boa vontade, é certo) obras de espionagem em Alexandre Dumas (o próprio D’Artagnan, em “Visconde de Bragelonne”), Honoré de Balzac, Frederick Marryatt, Emilio Salgari e até Jules Verne (“Michel Strogoff”, v. g.).
Desde sempre, as obras que convencionámos situar neste território (a obra de ficção dita de espionagem) teve relações frequentes com a aventura (como em Verne), ou na pior das hipóteses, com as facetas mais primárias do género negro.
“Tua é agora a espada, tem-la cravada no peito!”
Ação, Bem derrotando o Mal, sangue estuando de cada página, mas com tempero patriótico à mistura!
Pouca qualidade literária, se alguma, uma dosagem reforçada de peripécias de livro de aventuras para jovens, ação e punhos (espada ou pistola), predominando sobre qualquer tipo de raciocínio.
Por vezes, como brinde, um bom humor genuíno, ou piadas primárias de comédia de pastel na cara.
Outras, como no caso de Miguel Strogoff, ressumando patriotismo, de lágrima no canto do olho, altruísmo até ao inverosímil, sacrifício até à santidade.
Menciono aqui, de passagem, nos anos quarenta e cinquenta do século XX, as edições baratas de romances de aventuras populares de agentes secretos (quantas vezes anónimas ou, ainda pior, assinadas com pseudónimos anglo-saxónicos enganadores), que nós, pobres adolescentes do pachorrento Portugal salazarento, devorávamos sem estados de alma e ainda menos sentido crítico.
Porque havia outra Ficção, de temática densa e socialmente diferente da destes livrecos, coerente, sociologicamente credível, viva, por vezes heroica ou trágica, com conveniente espessura histórica e nível do enredo por vezes espetacular.
Existem, entre a primeira eclosão do capitalismo vitoriano e o fim da II Guerra Mundial, com diversas abordagens, romances de excelente recorte literário de que saliento (a título meramente exemplificativo) obras que, uma vez lidas, não esquecem e pertencem, de facto, a outra dimensão: o já referido “Michel Strogoff”, de Jules Verne, “Brown on Resolution” de C. S. Forester ou “Greenmantle” ou “39 Steps”, de John Buchan.

Sem esquecermos, porque é de justiça, Fenimore Cooper (com o seu notável “The Spy”, de 1821), Joseph Conrad (“Under The Eyes of the West” e “Secret Agent”, de 1910), por exemplo.
Mas o clima, muito anos trinta-cinquenta, dos pasquins permitidos pela censura, que tragávamos com delícia era o que verdadeiramente nos encantava (e alheava da realidade).
Quem presidia a este tipo de ficção policial?
Três homens protagonizam a época pré-histórica da obra de espionagem.
Em primarismo de enredo e brutalidade H. C. McNeile, M. C. (U.K., 1888-1937), dos Royal Engineers, chega para a caracterizar. Estamos na I Guerra Mundial (1914-1918).
De McNeil apenas uma das suas obras aparece no mercado editorial, antes de 1914. Refiro-me a “Jim Maitland”.
Sapper (nome literário) começou a escrever nas trincheiras, terminando escritor profissional a tempo inteiro nos anos vinte e seguintes.
Nesta fase da sua vida, mantém todos os tiques que são de esperar de um oficial de Sua Majestade. Os seus heróis (Captain Hugh “Bulldog” Drummond, Ronald Standish) são sempre desportivos, cavalheirescos, hercúleos, mas leais na luta, sólidos pilares de cimento e punhos de aço, na defesa do Império e de donzelas em apuros.
O estilo reflete um incurável chauvinismo, a roçar (não raramente) a mais abjeta xenofobia.
A exemplo de livros semelhantes dessa época , McNeile pode gabar-se de ter visto muitos dos seus inumeráveis livros adaptados ao cinema .
O perigo do Huno prussiano (nazis, já nos finais dos anos trinta) e, sobretudo, o da Rússia soviética, a dos bolschies, está sempre presente.
“Bulldog”, polícia amador como Holmes, é apenas um homem de ação, independente financeiramente, ex-combatente na I Guerra Mundial, que acha que a paz “is incredibly tedious” e, com a natural seriedade de uma banda desenhada da época, faz de detective (caçador de espiões e até criminosos comuns), para se divertir.
Tem inimigos íntimos (Carl Peterson e a sua amante, Irma), uma parelha de fiéis domésticos (James Denny e esposa), um polícia oficial (Lestrade privativo) para meter a ridículo (McIver) e dois amigos: Sir Bryan Johnson e o Coronel Talbot, do War Office, dois pomposos imbecis, que se multiplicam em deblaterar os lugares comuns que o nosso herói ainda não teve ocasião de proferir.
Vive no centro da cidade de Londres (primeiro em Half Moon Street, depois em Brook Street), tem ainda dois cottages em Goring e Fens, fuma cachimbo e é forte e alentado, como o seu homónimo canino.
Lança-se como detective e aventureiro duma forma original (publicação de um anúncio no “Times” que diz, ipsis verbis: “Demobilised officer finding peace extremely tedious, would welcome diversion. Legitimate, if possible, but crime, if of a comparatively humorous description, no objection. Excitement essential”).
Divertimento que o pobre leitor desprevenido não encontrará nos inúmeros livros de Sapper.
Drummond, ao fim e ao cabo, é um bruto reacionário e boçal, no ódio a tudo o que é não british, soberbamente ignorante (o seu parco francês é atroz, de italiano só sabe uma frase, de lei ou ciência nada sabe) .
Exerce uma forma muito pessoal de justiça, atuando como júri, juiz e carrasco dos vilões, aplicando uma justiça de martelo-pilão. Ou injustiça, como ele próprio admite (“Lonely Inn”).
O seu lema é “justiça pelas suas próprias mãos”, mãos essas que tem sapudas e calejadas, pois fez boxe (pesos-pesados) na universidade.
Ávido e compulsivo bebedor de cerveja, inflige a uma pobre Phyllis Benton a suprema afronta de a fazer sua mulher e a um incontável número de ex-oficiais escapados à I Guerra Mundial (Peter Darrell, Toby Sinclair, Jerry Seymour, Ted Jemmingham, Algy Longworth) o azar de os fazer participar nas expedições punitivas a que chama aventuras.

Outra criação de Sapper é mais humana e credível embora, lamentavelmente, só se nos revele num romance, em vinte contos curtos e em quatro novelas; nestas, como pálido comparsa do buldogue e de um pedante Tiny Carteret. Trata-se de Ronald Standish.
Conhecemo-lo em 1927 (“Horror at Stavely Grange”), pela primeira vez.
Com aparência de militar, bigode a condizer, nervos de aço e fleuma sem rival, só não atingira o topo da carreira na Scotland Yard (por exemplo), porque tinha que expiar um pecado (imperdoável para Sapper…): ganhar a vida, trabalhando!
Inexcedível em golfe, críquete, caça à raposa e ao grouse, perito em problemas de xadrez e charadas, como passatempo. Tinha, ainda, por distração apaixonante a arte de resolver crimes.
Devem-se-lhe algumas pérolas de sabedoria (“The Third Message”, “Tiny Carteret”, “Mr. Marbury’s Hands”, The Haunted Rectory”, “Ask for Ronald Standish”, “A Matter of Tar”, “The Creaking Door”, …), de que transcrevo apenas duas:
“It is of the highest importance, in the art of detection, to be able to recognise, out of a number of facts, which are incidental, and which are vital. Otherwise your attention and energy will be dissipated, instead of being concentrated”.
“One of the most dangerous mistakes you can make in any investigation is to start with a preconceived idea”.
O saudoso Conselheiro Acácio decerto não seria mais lapidar…
Mesmo assim, Sapper e o seu filho literário Standish, esses ultrapassados chauvinistas de sua Majestade, ainda têm imensos admiradores. E, pasme-se, até numerosos leitores fora do Reino-Unido…
Porquê?
Responde o próprio Standish: “Damned if I know, old boy !!!”
Nem ele, nem eu.
O segundo do trio é, com inteira justiça, pela qualidade da sua obra, William Tufnell Le Queux (1864-1927), “jornalista” do Globe e do Daily Mail (além de verdadeiro agente secreto britânico), a quem se deve a criação do verosímil romance de espionagem.
A ele se reporta a primeira produção em série, de relatos ficcionados do género, que se baseia na sua experiência real nos Serviços Secretos britânicos (“Guilty Bonds”, 1890, “The Great War in England in 1897”, 1894, “A Secret Service”, 1896, “The Veiled Man”, 1899, “An Eye for an Eye”, 1900, “The Sign of the Seven Sins”, 1901, “His Magesty’s Minister”, 1901).
Com Le Queux nascem as incessantes aventuras, sempre em perigo mortal, sempre em situações de risco para o “British Empire”, relatando, sem esmorecer, a interminável saga do patriótico (claro) advogado John James Jacox e do seu amigo Ray Raymond, contra terríveis agentes alemães, associações secretas (Hidden Hands) e até perversos franceses (era filho de um francês e de uma inglesa) e russos (ainda czaristas).
Mas é também em 1901 que surge, a primeira (no tempo) das poucas obras-primas deste género (ainda hoje a tenho como tal): “Kim”, de Rudyard Kipling (1865-1936).
As aventuras do jovem “Kim” (Kimball O’Hara) para salvar o agente E. 23, conservam uma frescura notável e fazem-nos recriar uma Índia do Rajh vitoriano que, embora falsa, nos é apresentada em páginas de grande beleza. Como disse Claude Farrère: “Rudyard Kipling não hesitou … em construir um romance sobre espionagem, no qual todos os papéis simpáticos pertencem aos espiões. Kim é a humanidade inteira. Kim é a epopeia da ação e do sonho, da energia e do pensamento”.
Mas, após esta saga imperial, surge, apenas dois anos depois, o que considero, sem favor, ser o melhor clássico de espionagem em toda a sua (possível) beleza: o maravilhoso “The Riddle Of The Sands”, de Erskine Childers (1870-1922).
Entrou na revolução irlandesa, lutando no I.R.A. e foi fuzilado pelos próprios compatriotas, na luta interna, entre partidos, religiões e caciques, que se seguiu à independência.
Em troca, legou-lhes (-nos) um único livro, com as aventuras de dois jovens ingleses que, no decurso de umas férias num pequeno iate, percorrendo as ilhas Frísias, no Mar do Norte, descobrem os preparativos militares secretos do Império Alemão para invadir a Grã-Bretanha.
A história dos jovens Carruthers e Arthur Davies, foi uma fonte de delícias (e inspiração), durante mais de meio-século de gerações de ingleses. O estilo sóbrio e vivo, as peripécias, contadas com grande sentido de tensão dramática e realismo, tornam-no um clássico e um precursor do melhor do género.
Diz-se que Winston Churchill, quando First Lord do Almirantado, e tendo (como todos os ingleses cultos do seu tempo), “The Riddle of the Sands” na mesa de cabeceira, nele se inspirou para criar as grandes bases militares navais britânicas no Norte da Escócia (Scapa Flow).
Sir Arthur Conan Doyle (“The Adventure of the Bruce-Partington Plans”, de 1908 e “His Last Bow”, de 1917) ensaia duas histórias de espionagem “sans mélange”, com a indispensável presença de Sherlock Holmes.
Sem sairmos destes felizes anos do princípio de um século que foi de horror, uma palavra de apreço para o simpático “self-made man” que estava em “todas”: Edgar Horatio Wallace.

“Captain Tatham of Tatham Island”, de 1909, “The Green Rust”, de 1919, “The Man from Morocco”, 1926, “The Keepers of the King’s Peace”, de 1917, “The Hand of Power” (este já de 1927) e imensos outros livros em que, como Jean Ray na sua série Harry Dickson, não sabemos onde começa a aventura juvenil e acaba a espionagem “patriótica” (Ray era flamengo e anglófilo).
Há sempre um esporádico esvoaçar de conspirações que acabarão com a inteira humanidade (ou pior, com a integridade do Império Britânico), mortes esquisitas, cachimbos meditativos e um sóbrio whisky para os bons, exóticos licores do oriente e ópio para os maus.
Mesmo o português Adolfo Coelho, com o seu “O segredo de H-21” (que até ressuscita Mata-Hari, para bem da intriga), participa deste espírito.
Saboreie-se:
“… um observador perspicaz notaria facilmente que nem todas aquelas casacas escondiam diplomatas … um indivíduo de cabelo grisalho e bigodes gauleses conversava animadamente com uma rapariga com um vestido de berrante vermelho a cuja alegria ruidosa não devia ser alheia uma garrafa de champanhe, quase vazia.
“Quem é?” perguntou Reiriz, com um ar indiferente.
“É o Coronel Théniers, do Serviço Secreto francês”, subitamente arrependido Duval acrescentou rapidamente: “pelo amor de Deus, Reiriz, isto fica entre nós”.
“Sem dúvida”, retorquiu Reiriz em voz muito baixa, enquanto que um sorriso indefinível lhe passava pelos lábios “tanto mais que, se isso seria novidade para mim, não o deve ser para aquele sujeito de crânio rapado e face rubicunda, que não desprega os olhos dele e é o Major Von Kalle, chefe da 3ª Secção do Serviço Secreto alemão”.
Muito mais tarde (cinco anos que parecem um século, para quem viveu a primeira das guerras mundiais), Agatha Christie e Edgar Wallace jogarão ainda com estes temas, temperados agora com perigo bolchevique (nomeadamente a primeira, com “Secret Adversary”, de 1922), onde nos é apresentado o encantador casal Beresford, (Tommy and Tuppence) e o super-vilão Mr. Brown, advogado, aristocrata e bolchevique; “Kidnapped Prime Minister”, 1924, “The Big Four”, de 1927, com Poirot feito “007”, “The man that was number 16”, 1927, “N or M?”, talvez o menos mau, de 1941, “The Underdog”, 1951, “The Clocks”, 1963, “Passenger to Frankfurt”, 1970, “Destination Unknown”, 1954, “The Submarine Plans”, 1974.
Wallace, por seu lado, pende decididamente para a opção espionagem e aventura.
O terceiro expoente deste género, um verdadeiro Lord, parece de outro campeonato, de nível muito inferior, embora talvez por isso, tenha sido extraordinariamente popular junto de leitores da pequena-burguesia anglo-americana (ídolo de criadinhas letradas).
Falo do ricaço e globe-trotter, Edward Phillips Oppenheim (1866-1946).
A meu ver, tudo na sua imensa obra é medíocre e prenhe de lugares comuns.
O estilo: arrebicado, com pastosas e inúteis divagações, sem ritmo, sem qualquer descrição minimamente plausível da psicologia das personagens.
O enredo: inverosímil até ao absurdo.
O enigma ou intriga: pobres e repetitivos.
A postura, face ao leitor: académica e arrogante.
Safa-o uma descrição (vivida por inteiro, tenho a certeza) do luxo dos sleeping-cars e hotéis de luxo, restaurantes da moda, assim como da opulência e insuportável arrogância da cant inglesa e das grandes zonas de férias do jet-set da época.
Porque eram a sua vida no mundo real.
A seu crédito, também, ter aqui e além, alguma graça.
Mesmo assim, há quem leia, ainda hoje e com prazer, os seus cento e quinze livros e trinta e nove recolhas de contos curtos.
Mas só a I Guerra Mundial gerará um novo autor, de estatura literária semelhante a Kipling e Childers. Em setembro de 1915, mais precisamente, com a publicação do seu mais ardiloso e melhor romance: “The Thirty-Nine Steps”.
John Buchan nasceu (em 26 de agosto de 1875) em Broughton Green, no Peebleshire e morreu, em Montreal, no Canadá, em 11 de fevereiro de 1940.
Este escocês, típico exemplar de jovem de classe média alta, embora sem dinheiro, filho de um pastor da Igreja Presbiteriana Escocesa, fez os seus estudos em Oxford e foi, ao longo da sua vida, um brilhante jornalista no Spectator, diretor-adjunto da Reuter (nem mais…), político (trabalhando na pacificação da África do Sul, após a guerra dos Bóeres, como assistente de Lord Milner), deputado nos Comuns, editor, historiador (biografias de Cromwell e Walter Scott, por exemplo), ensaísta, poeta, espião e agente do Intelligence (em 1916, no Estado-Maior do Marechal Douglas Haig) e, por fim, Governador Geral do Canadá, Lord Tweesmuir.
Li um livro dele, celebrando o reinado de George V (“The King’s Grace”, 1935, Stoughton & Hodder) que nos permite conhecê-lo bem. A Buchan, claro.
Melhor ainda que a sua autobiografia, “Memory Hold The Door”, de 1940, a maneira como fala do rei, neste “retrato real”, identifica-o: um conservador de raiz, adepto da excelência para o mundo de um imperialismo britânico sem peias.
Que, quando deputado, proferiu (o que o resgata de inúmeras tolices políticas que também são de sua autoria): “Todos os homens de bom senso têm as suas convicções políticas. Só que nenhum homem de bom senso anda por aí a exibi-las”.
Membro de dois célebres Clubes–Lobbies de enorme influência na política britânica (hoje diríamos think-tanks), o Chatham Dining Club e o The Runagates Club, tinha todas as possibilidades de analisar e conhecer os sombrios meandros da política oculta, da espionagem e contraespionagem, como muito poucos, antes e depois dele, tiveram.
Inventou um herói (diria eu, malgré lui), e, muito britanicamente modesto, nada fazendo por “heroísmo”: Richard Hannay.
É impossível não reconhecer a inquestionável qualidade literária de alguns dos seus livros, a expectante onda de alegria de viver e otimismo existencial que os atravessa, a viva e apaixonante descrição das paisagens onde decorre a ação, a espécie de moral saudável e juvenil, aventura sem esperar retribuição, de coragem, sem se considerar um herói (ao alcance do homem comum, pois) em contraste com a pudica (embora hipócrita) forma com que, em geral, nos são apresentados os “heróis-espiões” por quase todos os outros autores.
Que são todos patriotas fanatizados, cidadãos excecionais em tudo, passando por fim a super-homens, fazendo do seu dever quase militar para com a Pátria, um “serviço de senhores” . Buchan nunca se rebaixou a tais vulgaridades.
No Reino Unido, é a Irlanda (como sempre, de Swift a Shaw, de Le Fanu a Wilde) que fornece os génios (e também os horrores) para todas as formas de literatura ou poesia.
O correspondente de guerra nos Balcãs, do Daily Mail e também da Reuter, Valentine Williams (1883-1946), poliglota, ligado aos recessos da diplomacia, depois oficial (durante a I Guerra Mundial, nas forças britânicas, depois na Irish Garda, na República da Irlanda) merece menção. Pela negativa, penso eu.
Convalescendo de ferimentos graves de guerra, inicia a sua carreira de escritos de espionagem, em 1916, com “The Man With The Clubfoot”, a que se seguirão muitos outros, de valor desigual.
Honestamente, diz aos seus leitores: “Fiquei siderado pelas possibilidades romanescas do espião em obras de ficção … sobretudo quando descobri, nos anos de estadia no estrangeiro, quão sórdidas e indignas eram, na realidade, as atividades de espionagem. Mas a sedução [do leitor] continuava a exercer-se”.
Os seus “anti-heróis”, Adolph Grundt, dito Clubfoot (pé aleijado), espião germânico, assim como The Fox (aliás, Barão Alexis de Bahl), são pouco mais do que um sofisticado puzzle de lugares comuns em duas dimensões.
O estilo e o ritmo da ação são pobres.
No policial dedutivo, cria um Sargento da Scotland Yard (Trevor Dene) e um alfaiate, polícia amador, Mr. Treadgold, que não são melhores.
Por fim, a maturidade deste género chegará, ao terminarem os nefastos anos trinta.
E pela mão de um inglês mitómano, talvez neurótico grave, mas dotado de um notável sentido comercial e excelente imaginação.

Refiro-me a Peter Cheyney.
Esse amável brincalhão.
A sua exuberância, o seu afiado sentido de humor, a sua liberdade na linguagem e até os costumes das personagens são ainda inéditas quando aparecem as suas primeiras aventuras.
O Cheyney de 1936/7 em “This Man is Dangerous” e “Poison Ivy”, antecipa Fleming. E igualmente, o seu não tão genial sucessor, John Gardner.
Reginald Evelyn Peter Southhouse Cheyney (n. em Londres, 1896, m. mesma cidade, em 1951) foi um Himalaia de contradições.
“O que Cheyney trouxe ao romance policial, foi tudo o que a vida sempre lhe recusou”, disseram dele, com razão, Boileau-Narcejac.
É a pura verdade.
Vivia socialmente enredado numa teia de mentiras, com que adornava a sua baça biografia.
Era um homem profundamente inseguro, que compensava os seus complexos de inferioridade, agindo como um mitómano patológico?
Foi um herói na I Guerra Mundial, ferido três vezes, citado um sem número de vezes, capitão aos dezanove anos?
Ou, na verdade, foi, sim, um obscuro subtenente da Intendência Militar, tudo fazendo para não ser mobilizado para o front?
Foi um brilhante detetive privado da cant britânica?
Ou um mísero agente auxiliar (burocrata administrativo) da polícia, ignorado ou desprezado pelo mais indigno Constable?
O que não merece contestação é que o nosso autor, parece tirado das páginas de um romance de Evelyn Vaughn.
Sabemos que, além do seu irritante bigode à Errol Flynn, foi aprendiz de notário e que, após estudos mais do que medíocres, tentou ser ator, em 1913.
Imediatamente antes da Guerra (1914-18) publica alguns sketches, poemas e versos de canções.
Torna-se agente de apostas (bookmaker) em 1922.
Em 1926 (durante a greve geral no Reino Unido, convocada pela C.U.T., de 3 a 12 de maio), conhecido pelas suas opiniões racistas e ultrarreacionárias, é mobilizado como fura-greves, numa espécie de milícia precária especial.
Depois, acabado o maná com o fim da greve geral, funda uma agência de detetives privados com um sócio (o ex-inspetor-chefe Harold Burst), antigo guarda-costas de personalidades.
E, em 1936, lança o seu primeiro policial.
Com os romances de espionagem (durante a guerra), todos com “DARK” no título, consegue talvez criar as menos más das suas obras.
Criou Lemmy Caution. Agente famoso (um semideus) do Federal Bureau of Investigation, que conduz os inquéritos que lhe são confiados da maneira menos ortodoxa imaginável, com doses monumentais de mulherões e whisky, para o manter em forma.
Enfatuado e descontraído, amigo da pancadaria, narra as aventuras em primeira pessoa, com muita autocomplacência e algum sentido de humor.
Slim Callaghan é um detective privado londrino. De um cinismo e uma falta de princípios morais sem paralelo (mesmo comparado com Caution, nada flor que se cheire), rápido no gatilho, falsificando provas e enganando os pobres polícias da Scotland Yard.
O seu machismo e as suas filosofias de pub de terceira, infelizmente farão escola.
No cinema, a figura de Eddie Constantine como Lemmy Caution e Tony Wright, como Callaghan, são angelicais, comparadas aos originais heróis de papel que Cheyney descreveu nos seus livros.
Nos que tratam do esforço de guerra (leia-se propaganda aliada, na II Guerra Mundial) temos personagens mais simpáticas, o chefe dos “Secret Services”, Peter Quayle, a sua equipa de elite (Ernest Guelvada, Shaun O’Mara, Kiernan, Greeley, Alonzo McTavish), sempre disponíveis, sem alarde mas com muito, muito, muito álcool, para sacrificar a vida (com cirrose) pela paz no mundo, a derrota do nazismo e a procura da justiça, num mundo enlouquecido pelo conflito.
As suas ultra minuciosas (fetichista? ou pior?) descrições do vestuário, sapatos, maquilhagem, das vamps e dos heróis, durante páginas e páginas, ultrapassam o patológico.
Mesmo assim, têm-no como percursor, nos anos de guerra, de algumas tendências do policial de espionagem, que, poucos anos mais tarde, desabrocharão em obras de muito superior craveira literária e imaginativa, de Ambler a John Le Carré, de Forsyth a Ian Deighton.
E, finalmente, cabe-nos referir a única obra de maestro (deste género) escrita por Somerset Maugham, ele próprio espião de Sua Majestade.

“Ashenden”, publicado em 1926.
O livro divide-se em pequenos episódios, curtos, que nos desvendam a vida real do agente secreto, com todas as suas cobardias, monstruosidades, erros ridículos, até manias, da dita guerra nos bastidores.
Criação de uma personalidade complexa, escrito num estilo acre e cínico, que caracteriza Maugham, evidenciando que, em parte, é autobiográfica: o escritor, homossexual, escritor já mundialmente conhecido, ex-aluno de Heidelberg e filho de diplomatas, era uma presa ideal para os Secret British Services, que o recrutaram – ou chantagearam – e para os quais trabalhou, em Genebra e na U.R.S.S.
Por fim, no período que antecede o segundo conflito mundial, apenas merece destaque (mas, note-se, como estrela de primeira grandeza) um nome: Eric Ambler (pseudónimo de Elliot Reed).
Nasceu em Londres, em 28 de junho de 1909 e morreu, na mesma cidade, a 28 de outubro de 1998.
Os pais eram marionetistas nos tempos livres, um dos muitos sintomas do ambiente liberal (para a época) e feliz em que cresceu.
E que relata numa autobiografia da primeira parte da sua vida (“Here Lies Eric Ambler”, 1985), obra tocante de humor contido e ternura.
Engenheiro entre 1925 e 1928, torna-se, entre 1929 e 1937, em plena Depressão, redator publicitário de nomeada, que o desemprego grassava como a peste na ocupação a que se dedicava antes.
Para mais, com as suas públicas opções de esquerda (muito marcadamente à esquerda), de que nunca abdicou.
Em 1936 publica o seu primeiro thriller, “Dark Border”, onde conscientemente tenta alterar (mais do que no estilo narrativo, onde é manifestamente superior), sobretudo no plano ideológico e na caracterização das personagens da obra, a escola clássica de romances de espionagem-aventura.
Que, como já referi, primava pelo conteúdo medíocre e inverosímil, estilo repetitivo e patrioteiro, racismo rasteiro e conservadorismo primário.
Chocava-o que Erskine Childers, Somerset Maugham e John Buchan, cujo valor literário respeitava, fizessem (para efeitos práticos), causa comum com os horrores amarelos de Rohmer, os perigos árabe-subversivos do Magrebe colonial, de P. C. Wren, a conspiração constante de agitadores (?) anarco-sovieto-anti-britânicos-estrangeiros-coloniais-de-pele-escura, com a esmagadora maioria dos escritores do estofo de Le Queux, Oppenheim, Toussaint-Samat ou Sapper, retratistas medíocres da França, Reino Unido, Bélgica ou Estados-Unidos.
Donde provinha a sua ineptidão, segundo ele, “para relançarem, com um novo olhar, o policial do género, mergulhado sem remédio numa antiga e estúpida forma de escrever, usada e vista”.


Em 1938, Ambler abandona o mundo da publicidade e entra na indústria cinematográfica, como assessor de Alexander Korda.
Pode agora dedicar-se a fundo a escrever, o que faz de imediato, publicando, entre 1937 e 1940, “Epitaph for a Spy”, “Cause for Alarm”, “Journey into Fear” e “The Mask of Dimitrios”, considerado por muitos (entre os quais, eu), o seu melhor romance.
A sua sensibilidade de esquerda é claramente assumida nas obras que escreve e, sobretudo, o antinazismo, manifesto em quase todas, explícita ou implicitamente.
Em 1940, Ambler entra na guerra como Diretor–Adjunto do serviço cinematográfico do War Office, para ajuda ao esforço de guerra e propaganda aliadas.
Durante o conflito, já tenente-coronel, inicia uma nova carreira: a de guionista, encenador e produtor da Rank Films.
De 1944 a 1958, escreverá, pois, os argumentos de filmes dirigidos por David Lean, Carol Reed, Robert Parrish, etc.
É também em 1940 que Eric Ambler publica diversos contos policiais de dedução, protagonizados por um polícia checo, o Doutor Jan Czissar (refugiado em Londres durante a II Guerra Mundial, como o belga Hercule Poirot o estivera, na primeira).
Esses contos, refeitos, alongados e encurtados muitas vezes, são reunidos, em 1993, num livro, “The Intrusions of Dr. Czissar” e são muito engraçados, ainda que de textura e trama mais do que simples.
Em 1951 (passaram dez anos já sobre o seu último livro policial), por pressão dos seus amigos Nöel Coward e Ian Fleming, escreve o “Judgement on Deltchev”, primeira tomada de posição inequivocamente anti-stalinista, passado na Bulgária.
Depois, analisa, em dois romances, as consequências da descolonização, o crescer do tráfico de armas internacional e os problemas do Extremo-oriente (Ásia do Sudoeste).
Em 1958, parte para Hollywood, trabalhando desta vez com a MGM.
Experiência que lhe não agrada nada, mas que lhe permite escrever dois romances, “The Night of Istanbul” e “Dirty Story”, que têm por herói um mesmo sujeito, Arthur Abdel Simpson.
O primeiro, sob a direção de Jules Dassin, dará origem ao filme “Topkapi”, grande êxito de bilheteira, na época.
Ambler volta ao romance de espionagem puro e duro com diversos romances, alguns dos quais quase tão bons como o foi “A Máscara de Dimitrios”, no seu começo de carreira.
Dizia ele que os seus romances tentavam evitar os heróis arquétipos (tipo James Bond, perfeitos em tudo, da pontaria ao conhecimento de vinhos, das técnicas de judo à escolha de gravatas), centrando-se em figuras banais, como qualquer de nós, com as quais naturalmente nos identificamos e que, presas de um acaso que as faz terem de enfrentar circunstâncias angustiantes (quer provocadas pelo dinheiro, pela guerra, pelo crime organizado ou pela alta – e baixa – política internacional), agem com coragem e inteligência e, por fim, deslindam a trama.
Os seus “quase anti-heróis”, o físico Henry Barstow, o engenheiro Nicholas Marlow, o refugiado antifascista Joseph Vadassy, o romancista Charles Latimer, o ainda jovem engenheiro Graham, o advogado George Carey, o intérprete Arthur Abdel Simpson, entre tantos mais, são seres humanos, não heróis.
Nem o querem ser.
Quase sempre, é a sua recusa definitiva a fazer parte, mesmo por omissão, numa canalhice ou num crime, que os leva à ação.
A II Grande Guerra, na qual as informações e a contraespionagem desempenharam um papel infinitamente mais importante do que na primeira, seguidas do começo da guerra fria, dão consistência à viragem decisiva dos romances de Ambler (já iniciada pelos anos trinta), apresentando os agentes secretos não como acacianos heróis de Condessa de Ségur, mas como seres banais, sem medo de sujar as mãos ou assassinar, exercendo um ofício que sabem perigoso e corruptor das suas consciências.
A esta exigência de verdade, junta-se um dos melhores sentidos de humor da literatura de espionagem.
Eric Ambler, não hesitou em chamar à sua autobiografia, “Here Lies Eric Ambler” (de duplo sentido: “Aqui jaz E. A. ou Aqui mente E. A.”)
A sua obra é percursora da denúncia, que se impõe como nunca nos dias de hoje, das mentiras governamentais, das entorses morais de políticos, jornalistas e fazedores de opinião, dando ao espião o papel mais de uma vítima de conspirações que o ultrapassam, do que o de demiurgo da maldade humana.
E assim aparecem os seus protagonistas: um académico, que escreve romances policiais dedutivos, apanhado na engrenagem em Istambul (“The Mask of Dimitrios”), um pobre professor de liceu, fotógrafo amador em férias, tomado por espião (“Epitaph for a Spy”), um engenheiro de máquinas inglês, irritantemente middle class, num navio de carga, no começo do conflito mundial, em 1939 (“Journey into Fear”), um perito em fraude fiscal e branqueamento de capitais (“Send No More Roses”).
Grande observador da natureza humana, caracteriza, por vezes genialmente, até as personagens mais do que secundárias dos seus livros.
Para isso, usava a experiência e observação dos comportamentos e fraseologia de amigos e conhecidos, até se tornar exasperante.
Que o diga Romain Gary, que tinha tido o azar de assistir aos processos de Staline, intentados aos opositores do regime comunista búlgaro e que teve que puxar das recordações até à exaustão, para permitir a Ambler o começo de “Judgement on Deltchev”.
A sua formação de engenheiro, a experiência de negócios, imprensa e publicidade, que o trabalho e a guerra lhe proporcionaram, dão-lhe a maturidade, que alia a um humor desconcertante e a uma contenção de prosa que, ainda hoje a torna completamente atual, viva e cativante.
Fazendo das suas obras referência para muitos, à custa de plágio, tornados autores de best-sellers (em que se não limitam apenas a copiar alguns efeitos ou ideias).
Ambler, foi (talvez acompanhado por Graham Greene, John Le Carré e F. Forsythe), uma das figuras que mais marcaram e estiveram na origem de uma profunda mudança da literatura dita “de espionagem”, nos últimos cinquenta ou sessenta anos .
Mas nisto da literatura de crime e mistério na vertente da espionagem ainda há muito a dizer, como o leitor verá.

(continua)

Carlos Macedo

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